terça-feira, 6 de agosto de 2013

CARTAS DE ANA E PEDRO (últimas 9 de 17 cartas)

    9.   Cathedral Groove (reserva florestal de pinheiros gigantes), Vancouver, novembro de 2004
     Meu Pedro:
     Sinto também, no que faço, a necessidade de que no outro, meu gesto continue... assim como tuas palavras de papel se prolongam dentro de mim.
     Na entrada da reserva florestal, um letreiro, em placa de alumínio coberta a plástico transparente, dizia: “Você está em frente aos seres vivos mais idosos da Terra - mais de 800 anos - Olhe bem para eles, antes que morram”. Manuscrito num pedaço de cartão, que alguém colocou entre o alumínio e o plástico, estava escrito: “Velhas árvores não morrem nunca. Elas simplesmente voltam à terra, para alimentar outras que nascem”.
     Segue a foto do pinheiro mais belo, fatia do eterno aprisionada em papel.
     Beijos.
                                          Ana
PS: Quanto às rosas, me disseram um dia, elas já nascem com as estações dentro delas.


10.  Rio de Janeiro, novembro de 2004
     Ana querida:
     A foto que mandaste, revolveu a manhã inteira dentro de mim: como em um tronco podemos ler a história do mundo desde o primeiro sopro... e como somos cegos em relação a essa possibilidade.
     Fecho meus olhos e momentos depois constato que sempre, em cada momento, somos cegos em relação a tantas coisas... Descubro também que quem eu vejo (ainda de olhos fechados) não sou mais eu, porque o me ver me faz ser outro, ou eu mesmo, justo por não ser mais eu! Não é verdade que apenas olhamos um rio quando em vez de água vemos o seu fluir?
     Mais tarde saio, e encaro a chuva cujas gotas trazem impressas lembranças de ti e, ao me molharem, me desembrulham em desejos de te ter. Caminho, e meus sonhos desenham outros passos adiante dos meus passos.
     Teu riso aparece com tal intensidade no meu que, por vezes, não sei se sou eu mesmo quem ri.
     Um beijo molhado.                                        
Pedro
    PS: Me assaltou hoje o pensamento de que talvez a escrita, para mim, seja apenas um vício, ou um desejo estéril de me sobreviver.


11.  Armona (sul de Portugal), dezembro de 2004
     Pedro,
     Mais do que me sobreviver, me pergunto se tudo o que faço existe porque eu existo, ou se apenas eu existo porque o faço.
     Sentada na orla da minúscula ilha, olho os reflexos do sol nascente no mar, e por um instante sou tomada de loucura (ou profunda lucidez): lentamente levanto-me, dispo-me e caminho nua pelos reflexos, ao encontro do sol.
     Também em mim, a chuva, vez por outra, costura anseios a lembranças de ti, e faz meus passos se desacertarem.
     Voo depois de amanhã para a Índia (ainda, tentando seguir os reflexos do sol nascente).    
     Um beijo agarrado em teu corpo.
                                          Ana
PS: Notícia importante sobre pássaros: nas torres da igreja de Alcácer do Sal, as cegonhas, indiferentes à zoeira dos sinos, dão o calor dos seus corpos às imberbes crias.


12.  Rio, janeiro de 2005
     Ana muito querida,
     À ansiedade de querer saber quem sou, onde estou, porque as aves voam e os peixes nadam, a essa ansiedade se somou este espaço vago que tomou conta de mim, que é como um caminhar em direção a nada: minhas mãos carecem de teus dedos, meus ouvidos de tua voz, meu peito de teu peito, meus lábios de desenhos de teus lábios.
     E me sinto cansado. Cansado de me ler, de me escrever. Num momento, sou moribundo de mim mesmo, para logo a seguir, minha ansiedade alertar todo o meu ser: como viver sem a tênue exaltação que é o encontro com um pedaço encoberto de mim?
     Olho em volta: silêncio. No borbulhar dos acasos, meus sentidos correm em busca da pérola azul, para a dissolver em meu sangue.
     Tento imaginar como será trocar olhares com a Ana que retornará, mas só me vem imagens da que partiu.
     À noite, procuro derramar sono sobre os meus pensamentos.
     Beijos, do tamanho de tua boca.
Pedro
PS: Não sonho mais contigo. Meus sonhos cansaram-se de não serem reais.


13.  Goa (Índia), fevereiro de 2005
     Querido Pedro,
     De uma parte incerta de mim me vem um estremecimento que me toma de assalto por inteira. Como se tuas frases injetassem em minhas entranhas a pérola que persegues.
     Te escrevo de uma praça em Velha Goa. Um gentil indiano tenta me fazer perceber o hinduísmo: “É tudo, de zero a infinito, ao mesmo tempo em todas as direções, entende?”, me diz ele, com voz pausada. Eu faço que sim, com a cabeça, e olho em volta: à nossa frente, um templo hindu, à esquerda, a Basílica de Bom Jesus (onde estão os restos mortais de São Francisco Xavier), à direita, a Sé Catedral dos Dominicanos e mais além as ruínas de uma mesquita muçulmana. Delicado, ele pergunta-me qual a minha religião e eu, receando ferir a sua suscetibilidade, finjo não compreender. Porém, ele insiste, e acabo respondendo que não tenho nenhuma. Estranhamente, ele sorri e, sempre gentil, sentencia: “Ah, então é como eu. Nenhuma, nada, é o mesmo que tudo, ao mesmo tempo em todas as direções, de zero a infinito”.
     Feliz por te sentir vivo, ainda que cansado, sonhador, porém acordado, pleno de desejos.
     Mando-te a foto de um menino nu: um de tantos que a imaginação gera em mim e a realidade aborta. Sonhos adiados que me afadigam.
     Beijos mil.
                                          Ana


14.  Rio, março de 2005
     Querida Ana:
     Teu menino nu, olhar teu ampliado, me fez nascer desejos de renascer em ti. Olho-a como se fosse um outro eu brotado de teu eu. Fecho meus braços e aperto-a em meu peito. Queria-te também, abraçar por inteiro, ter-te, proteger-te de... de não sei o quê.
     Despovoado de teu toque, descubro como é difícil não te ter, dividindo o dia. Me vejo emendando gestos, enquanto meus passos aprendem as distâncias a sós. Com sobressalto constato que a saudade alagou minhas horas e me pergunto sobre os ares que respiras, os fogos que te consomem e as águas em que os resfrias.
     Minhas palavras em voz alta se fundem ao silêncio e a teus movimentos deixados no espaço, e desabam sobre mim.
     Meu coração está cheio de retratos teus.
     Os beijos que trocamos começam a cicatrizar em meus lábios. Como é mesmo te abraçar?                                   
Pedro
PS: Não te pergunto quando voltas. Receio conhecer a resposta.


15.  Pahar Ganj, Nova Delhi, maio de 2005
     Pedro querido,
     Passeio devagar entre saris, tapetes, panos coloridos e o vozerio dos vendedores tentando aliciar-me num inglês incompreensível, misturados com buzinas estridentes de riquixás e bicicletas, acordes de cítara, vacas e hippies ressuscitados dos anos sessenta. Um velho esquálido que se confunde com o chão onde parece estar de cócoras há mais de mil anos, estende-me a mão aberta onde deposito uma rupia. Evitando as poças de esgoto, os sorrisos dos vendedores e as ofertas para tomar chá, tento proteger-me da nuvem de poeira que tudo parece dominar e dos 44º de temperatura.
     Inebriada com o que me rodeia, penso que de algum modo, um pedaço meu sempre esteve aqui. Me vem então um desejo imenso de continuar me descobrindo. Por isso... (vasculhei meu peito o dia todo, buscando uma maneira mais suave de te dizer, mas não encontrei) não sei quando volto.
     Te amo.
                                          Ana
PS: O que é voltar?




16.  Rio, maio de 2005
     Ana,
     Tudo imprimia em mim a sensação de que não voltarias. Só eu mesmo tentava resistir a essa idéia. Agora não sei como abrandar o sobressalto que se apossou de meu peito e atravessar a aridez que permeia minhas horas.
     Tento me reconfortar com banalidades, como a de que estamos sempre sós. Estamos sempre sós. Sempre sós. Sós.
     Tento, mas não consigo.
     De noite, revolves os meus sonhos, inquietando o meu dormir. Depois, manhã cedo, quando tudo dorme, me fazes continuar sonhando, embora acordado.
     Apenas porque a vida é curta, um pouco de mim será eternamente teu.
     Não sei mais como lidar com meus desejos de ti          
Pedro
     PS: Guardei as pétalas das rosas: elas insistem em conservar o teu cheiro.

(...)

17. Rio, março de 2006
     Ana querida,
     Cerca de dez meses depois de minha última carta, volto a sentar-me para te escrever.
     Neste tempo todo, descobri que a pérola azul que procurava, estava já dissolvida em meu sangue e que, me desenhar em palavras de papel, na verdade é garimpar pérolas multicoloridas em meus fluídos.
     Continuo sonhando contigo. Sinto no entanto que meus sonhos percorrem contornos de um dos universos possíveis.
     No álbum de meu peito, teus retratos adquiriram tonalidades claras e teu nome escrito no pó da vidraça é agora o recorte de algo tão infinito e indecifrável quanto o que ele representa.
     Continuo também não sabendo muito bem quem sou e por qual misterioso milagre me encontro aqui. Tampouco para onde vou, onde vamos...
     Teu riso deixou marcas indeléveis em meu caminhar e, se existisse a palavra obrigado, eu te diria obrigado, por isso. Te amo mais porque me amo mais. Acho que precisei me perder em ti, para me encontrar em mim.
     Um beijo para ti, sejas tu quem fores.                                   
Pedro
PS: No vaso grande da área, onde pensei só existirem pequenos galhos secos, um botão de rosa ameaça florir.



5 comentários:

José Truda Júnior disse...

Viver é viajar.

Vanessa Maia disse...

Fiquei chorando no meio do escritório, cercada por umas trinta pessoas quando acabei de ler. Escritores... Lindo e verdad eiro! Escreva um final alternativo de reencontro para eu parar de chorar.

Misa Coelho disse...

Verdade ou ficção,não sei,sei sim que ao ler estas cartas o meu coração ficou a sangrar e os meus olhos ficaram turvos.Espero pelo último capítulo anciosamente.

Mural do Pedro Veludo disse...

Obrigado por lerem meus modestos escritos com o coração e tanta sensibilidade. Beijos em todos.

Anônimo disse...

Lindo. Deixa-nos emocionados.