segunda-feira, 22 de setembro de 2008

CRÔNICA

Há tempos descobri, em Fortaleza onde fui dar uma oficina, um livreto com crônicas, assinadas por um "outro" autor, onde constavam algumas de minha autoria... Esta que segue, está já publicada, em livro.

A MINHA PÁTRIA
Málaga, Espanha. Subindo ao alto das muralhas do castelo, escuto o canto mouro com que as mulheres andaluzas atenuam os rigores do calor, enquanto cuidam dos jardins em torno das muralhas.

Lentamente o canto delas sobrepõe-se às explicações que o paciente guia fornece sobre reis, guerras e datas, e deixo de o escutar.

Abandono o grupo que o seguia e debruço-me nas ameias do castelo. Trazido pelo vento suave, o canto das mulheres é agora mais nítido. Olho a cidade lá do alto e penso no que me faz sentir como se estivesse em casa, no que me faz sentir como se estivesse na minha pátria.

Pátria vem de pai. Pai é aconchego cálido, é abraço. Pátria é prolongamento da pele. A pátria, não a nação. A nação é onde estão os prefeitos, os governadores, os deputados, o presidente. Pátria é onde estão os que são queridos. O conceito de pátria é amistoso, o de nação é agressivo. A nação existe porque a desenharam em um mapa, porque construíram paredes dividindo o solo que pisamos. A pátria não está delineada em nenhum lugar. Os pertencentes à mesma pátria se reconhecem entre si, os da mesma nação nem sempre. As pátrias existem por ligações indeléveis, as nações subsistem mediante pactos. A nação é quase sempre uma colcha de retalhos.

Não sei se serei de alguma nação. Sei, claro, a qual nação dizem que pertenço. Mas sei de que pátria sou. Sou também daqui, de Málaga e deste canto mouro que estas mulheres entoam enquanto alindam os jardins em torno destas muralhas. Canto que me tira o ar, me faz inchar o peito, me aconchegando feito ninar de pai, de pátria. E me mostra, quão maior e diversa minha pátria se torna a cada dia.


VELUDO, Pedro. ÁLBUM DE RETRATOS

Rio de Janeiro,
Ed. Graffitti, 3ª edição, 2002.

2 comentários:

Rosangela disse...

Realmente somos de onde sentimo-nos bem.
Rô Veludo

Rosangela disse...

Lindo. Gostei!!!