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terça-feira, 6 de agosto de 2013

CARTAS DE ANA E PEDRO (primeiras 8 de 17 cartas)

Ana e Pedro separam-se por um período inicialmente previsto para ser curto. Enquanto Ana viaja por diversos lugares, remetendo-lhe breves relatos de suas leituras de mundo, Pedro permanece no Rio de Janeiro.
   Cartas de Ana e Pedro é parte da correspondência que eles trocaram durante esse tempo.


CARTAS DE ANA E PEDRO

1.   Entre Rio e Belo Horizonte, julho de 2004
     Pedro querido:
     Há poucas horas tentava descortinar imagens em teu rosto, para mais tarde as folhear no álbum de retratos de meu peito. Agora, meu olhar se espraia pelas montanhas que a cada curva se desdobram e se oferecem nuas. E penso em minhas dobras (tão pouco nuas para ti) que escondo à tua leitura e, mais do que isso, nos motivos porque as escondo de mim mesma.
     E vi uma árvore que falava, um homem imóvel como uma rocha, e uma pedra cujas raízes entravam tão fundo na terra que me escorreram lágrimas pelo rosto.
     Pela janela do ônibus tento uma foto mas meu olhar possui contornos que a incompetente objetiva não alcança, e me frustro.
     Saudades de tuas mãos acordando meu corpo.
                                          Ana
PS: Não esquece minhas plantas!


2.   Rio, julho de 2004
     Querida Ana,
     Grafo para ti, palavras que no papel se me aparentam gastas. Inconformado, torço-as, troco-as, risco-as. Deformadas, elas mutilam meus sentimentos. Jogo o papel fora e encaro nova folha, em branco. Tão branca e tão cheia de porções de mim, e de outros, e de outros, e de outros... (uma folha de papel só está em branco se não se olha para ela, concluo).
     Por que não consigo reter, ainda que por um instante, minha saudade numa simples folha?
     Provisoriamente desisto e traço ao acaso riscos no papel, deixando que meu olhar passeie vidrado na ponta da caneta, enquanto desejos, domesticados pelos teus seios, me tomam de assalto.
     Mais tarde na noite, meus pensamentos se aninham nas dobras mornas de teu corpo: o escuro torna tudo possível.
     Meus dias sem ti parecem atulhados de tempo.
                                          Pedro
PS: Tenho regado as plantas. Apressadamente, às vezes. Será que elas vão se ressentir?


3.   Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, agosto de 2004
      Pedro,
     Chapada, centro geodésico do continente. Uns dizem que a população do planeta, no terceiro milênio, só aqui sobreviverá. Outros, vem em procissões místicas e se quedam meditando. Outros ainda, afiançam que o denso nevoeiro que por vezes aqui baixa, são caminhos do céu na terra. Os mais simples, no entanto, chegam e caem de joelhos, orando: afirmam, não se sabe se ainda desta vez feito homem, descerá neste lugar um novo Deus.
     Sinto um vazio no estômago. Não sei se o meu coração ri ou chora. Mergulho na cachoeira e desfaço-me em gotas de água prateada.
     Tua carta invadiu meu dia, desacertou meu coração, me acendeu relâmpagos no baixo ventre que a água fria não extinguiu. Vontade de largar tudo, correr para ti e me incendiar em teus braços.
     Mil beijos.
                                          Ana


4.   Rio, agosto de 2004
     Ana querida,
     A saudade de ti me apareceu na forma de um outono duvidoso: um nublado refúgio de lembranças de ti, um reflexo menos nítido de meu olhar no espelho ao acordar, uma impressão  vaga de que meus desejos se alimentam de negativas, uma sensação doída de que a vida nem sempre é um abraço...
     Errei horas pela casa até, feito autômato, me sentar frente a esta folha e começar a te escrever.
     Agora, cercado de palavras, aprisionado por frases que eu mesmo esculpi, tento identificar o que de ti floresce em mim. Porém, a cada palavra que escrevo aumenta a vontade de sumir por uma brecha do texto e encontrar teus lábios, teus olhos brilhantes e teus cabelos molhados pelas águas da Chapada.
     Giro a caneta pelo papel tentando me desenhar, mas não me encontro. Ansioso, olho o relógio: a garganta de minha ampulheta é mais larga que a da ampulheta do mundo. Preciso começar.
     Beijos apressados.                                                                 
Pedro

5.   Rio Madeira (Amazonas), a bordo do B/M Orlandina, setembro de 2004
     Pedro muito querido,
     Da floresta vem um cheiro doce que me excita, e o verde à minha volta, de tão verde, faz-me crer que tudo vai ser sempre assim. Na margem do rio, uma criança caminha indiferente a tudo o que me encanta. Nem o boto na sua fugaz aparição lhe altera o andar. Mais adiante, parada em Humaitá. Pela semi destruída escada de acesso, e pisando o lodo que o rio, agora em tempo de seca, deixou à mostra, embarcam três enormes sacos de biscoitos, catorze galinhas, dois motores, oito mestiços com quatro crianças sendo uma de colo, quatro latões de margarina, dois sacos de farinha, um homem com a camisa limpa, calçado e com uma maleta preta na mão direita, um cachorro que me pareceu cego e um vendedor de pamonha (que voltou a sair).
     E a viagem continua...
     Sinto que cada caminho que percorro redimensiona todo o meu ser. E me pergunto: que outras possibilidades, que outras vidas, outros mundos haveria, e quem seria eu, se em vez de seguir o capricho, a intuição que me fez voltar para um lado, eu tivesse me voltado para outro?
     Sei, não tens, não temos respostas. Mas, divisar tais possibilidades, me faz sentir multiplicada.
     Desejos de ancorar meu corpo ao teu, e me deixar adormecer.
     Beijos.
                                          Ana


6.   Rio, setembro de 2004
     Ana,
     Quisera eu me multiplicar, percorrer todos os caminhos possíveis, errar e acertar tantas vezes quantas as necessárias, descobrir todas as minhas forças. No entanto, e sempre com uma ânsia impotente de inverter os sentidos, me pego muitas vezes fugindo de determinadas sendas em favor de outras, excessivamente sensatas. Atalhos que encurtam a vida, eu sei.
     Te vejo nas ruas, esquinas, acenos fugazes, não sei mais se tu mesma ou uma outra que inventei.
     Recorto o horizonte com o olhar. Há dias em que, dentro de mim, te transformas em ausência.
     Anseio pela tua volta.
     Um beijo.                                 
     Pedro
PS: Sinto que nossa separação reedita em mim dores de separações tão antigas...


7.   Qosqo, Peru, outubro de 2004
     Querido Pedro,
     Nem quinhentos anos de sol e vento, nem dois terremotos, nem a voracidade de Pizarro conseguiram apagar os traços da cultura Inca.
     Na magnífica catedral com motivos barrocos (lembranças de Castela sobre ruínas Incas), no quadro da última ceia, Cristo tem à sua disposição, sobre a mesa, as mais variadas frutas tropicais. Cá fora, crianças estendem as mãos enquanto as mães apregoam bugigangas.
     Pátios sevilhanos e varandas talhadas em madeira. As praças parecem ser insuficientes para tantos “libertadores”.
     Não sei se são as cores dos aguaios ou o ar rarefeito dos Andes, mas algo me faz sentir tonta.
     Daqui, seguirei para Vancouver. Cada pedaço de mundo que minha leitura alcança me impressiona diferente, e vai-se encaixando num gigantesco quebra-cabeça onde cada peça só está onde está e na forma em que se encontra, no momento em que a recorto. Sei que nunca vou colocar a última peça, pois o quebra-cabeça cresce à medida que eu cresço, e nos confundimos. No entanto, sinto que a cada dia aumentam as minhas possibilidades de, nele, eu me reconhecer.
     Saudades do teu cheiro e de me dissolver em teus abraços.
                                          Ana


8.   Rio, outubro de 2004   
     Ana,
     Minha vontade é de te abraçar, te agarrar, te aguardar (me agradando), te aguardar o máximo, um máximo às vezes tão mínimo.
     No entanto, tudo o que neste momento consigo, é tentar verter em palavras de papel este mistério que trago comigo e que nem bem sei o que é... que eu nem bem sei quem sou...
     Palavras que morrem à medida que são geradas. Silenciosas se interrogadas, elas não se explicam, não dizem mais nada do que elas mesmas. São só palavras de papel. Mortas! Imutáveis, apenas lhes resta que, aliadas ao tempo e ao espaço, o mutante leitor as ressuscite, diferentes, para que, diferente, o autor do primevo gesto (existirá esse gesto?), renasça.
     Creio ser esse o único consolo das palavras escritas.
     Me recomponho ao descobrir teus olhos doces entre as palavras e nas entrelinhas da tua carta.
     No pó da vidraça escrevo o teu nome e, através de ti, fico-me lendo o mundo, lá fora, tomar tuas formas.
Pedro
PS: As pétalas das rosas, caem. Alguém lhes avisa das estações?

CARTAS DE ANA E PEDRO (últimas 9 de 17 cartas)

    9.   Cathedral Groove (reserva florestal de pinheiros gigantes), Vancouver, novembro de 2004
     Meu Pedro:
     Sinto também, no que faço, a necessidade de que no outro, meu gesto continue... assim como tuas palavras de papel se prolongam dentro de mim.
     Na entrada da reserva florestal, um letreiro, em placa de alumínio coberta a plástico transparente, dizia: “Você está em frente aos seres vivos mais idosos da Terra - mais de 800 anos - Olhe bem para eles, antes que morram”. Manuscrito num pedaço de cartão, que alguém colocou entre o alumínio e o plástico, estava escrito: “Velhas árvores não morrem nunca. Elas simplesmente voltam à terra, para alimentar outras que nascem”.
     Segue a foto do pinheiro mais belo, fatia do eterno aprisionada em papel.
     Beijos.
                                          Ana
PS: Quanto às rosas, me disseram um dia, elas já nascem com as estações dentro delas.


10.  Rio de Janeiro, novembro de 2004
     Ana querida:
     A foto que mandaste, revolveu a manhã inteira dentro de mim: como em um tronco podemos ler a história do mundo desde o primeiro sopro... e como somos cegos em relação a essa possibilidade.
     Fecho meus olhos e momentos depois constato que sempre, em cada momento, somos cegos em relação a tantas coisas... Descubro também que quem eu vejo (ainda de olhos fechados) não sou mais eu, porque o me ver me faz ser outro, ou eu mesmo, justo por não ser mais eu! Não é verdade que apenas olhamos um rio quando em vez de água vemos o seu fluir?
     Mais tarde saio, e encaro a chuva cujas gotas trazem impressas lembranças de ti e, ao me molharem, me desembrulham em desejos de te ter. Caminho, e meus sonhos desenham outros passos adiante dos meus passos.
     Teu riso aparece com tal intensidade no meu que, por vezes, não sei se sou eu mesmo quem ri.
     Um beijo molhado.                                        
Pedro
    PS: Me assaltou hoje o pensamento de que talvez a escrita, para mim, seja apenas um vício, ou um desejo estéril de me sobreviver.


11.  Armona (sul de Portugal), dezembro de 2004
     Pedro,
     Mais do que me sobreviver, me pergunto se tudo o que faço existe porque eu existo, ou se apenas eu existo porque o faço.
     Sentada na orla da minúscula ilha, olho os reflexos do sol nascente no mar, e por um instante sou tomada de loucura (ou profunda lucidez): lentamente levanto-me, dispo-me e caminho nua pelos reflexos, ao encontro do sol.
     Também em mim, a chuva, vez por outra, costura anseios a lembranças de ti, e faz meus passos se desacertarem.
     Voo depois de amanhã para a Índia (ainda, tentando seguir os reflexos do sol nascente).    
     Um beijo agarrado em teu corpo.
                                          Ana
PS: Notícia importante sobre pássaros: nas torres da igreja de Alcácer do Sal, as cegonhas, indiferentes à zoeira dos sinos, dão o calor dos seus corpos às imberbes crias.


12.  Rio, janeiro de 2005
     Ana muito querida,
     À ansiedade de querer saber quem sou, onde estou, porque as aves voam e os peixes nadam, a essa ansiedade se somou este espaço vago que tomou conta de mim, que é como um caminhar em direção a nada: minhas mãos carecem de teus dedos, meus ouvidos de tua voz, meu peito de teu peito, meus lábios de desenhos de teus lábios.
     E me sinto cansado. Cansado de me ler, de me escrever. Num momento, sou moribundo de mim mesmo, para logo a seguir, minha ansiedade alertar todo o meu ser: como viver sem a tênue exaltação que é o encontro com um pedaço encoberto de mim?
     Olho em volta: silêncio. No borbulhar dos acasos, meus sentidos correm em busca da pérola azul, para a dissolver em meu sangue.
     Tento imaginar como será trocar olhares com a Ana que retornará, mas só me vem imagens da que partiu.
     À noite, procuro derramar sono sobre os meus pensamentos.
     Beijos, do tamanho de tua boca.
Pedro
PS: Não sonho mais contigo. Meus sonhos cansaram-se de não serem reais.


13.  Goa (Índia), fevereiro de 2005
     Querido Pedro,
     De uma parte incerta de mim me vem um estremecimento que me toma de assalto por inteira. Como se tuas frases injetassem em minhas entranhas a pérola que persegues.
     Te escrevo de uma praça em Velha Goa. Um gentil indiano tenta me fazer perceber o hinduísmo: “É tudo, de zero a infinito, ao mesmo tempo em todas as direções, entende?”, me diz ele, com voz pausada. Eu faço que sim, com a cabeça, e olho em volta: à nossa frente, um templo hindu, à esquerda, a Basílica de Bom Jesus (onde estão os restos mortais de São Francisco Xavier), à direita, a Sé Catedral dos Dominicanos e mais além as ruínas de uma mesquita muçulmana. Delicado, ele pergunta-me qual a minha religião e eu, receando ferir a sua suscetibilidade, finjo não compreender. Porém, ele insiste, e acabo respondendo que não tenho nenhuma. Estranhamente, ele sorri e, sempre gentil, sentencia: “Ah, então é como eu. Nenhuma, nada, é o mesmo que tudo, ao mesmo tempo em todas as direções, de zero a infinito”.
     Feliz por te sentir vivo, ainda que cansado, sonhador, porém acordado, pleno de desejos.
     Mando-te a foto de um menino nu: um de tantos que a imaginação gera em mim e a realidade aborta. Sonhos adiados que me afadigam.
     Beijos mil.
                                          Ana


14.  Rio, março de 2005
     Querida Ana:
     Teu menino nu, olhar teu ampliado, me fez nascer desejos de renascer em ti. Olho-a como se fosse um outro eu brotado de teu eu. Fecho meus braços e aperto-a em meu peito. Queria-te também, abraçar por inteiro, ter-te, proteger-te de... de não sei o quê.
     Despovoado de teu toque, descubro como é difícil não te ter, dividindo o dia. Me vejo emendando gestos, enquanto meus passos aprendem as distâncias a sós. Com sobressalto constato que a saudade alagou minhas horas e me pergunto sobre os ares que respiras, os fogos que te consomem e as águas em que os resfrias.
     Minhas palavras em voz alta se fundem ao silêncio e a teus movimentos deixados no espaço, e desabam sobre mim.
     Meu coração está cheio de retratos teus.
     Os beijos que trocamos começam a cicatrizar em meus lábios. Como é mesmo te abraçar?                                   
Pedro
PS: Não te pergunto quando voltas. Receio conhecer a resposta.


15.  Pahar Ganj, Nova Delhi, maio de 2005
     Pedro querido,
     Passeio devagar entre saris, tapetes, panos coloridos e o vozerio dos vendedores tentando aliciar-me num inglês incompreensível, misturados com buzinas estridentes de riquixás e bicicletas, acordes de cítara, vacas e hippies ressuscitados dos anos sessenta. Um velho esquálido que se confunde com o chão onde parece estar de cócoras há mais de mil anos, estende-me a mão aberta onde deposito uma rupia. Evitando as poças de esgoto, os sorrisos dos vendedores e as ofertas para tomar chá, tento proteger-me da nuvem de poeira que tudo parece dominar e dos 44º de temperatura.
     Inebriada com o que me rodeia, penso que de algum modo, um pedaço meu sempre esteve aqui. Me vem então um desejo imenso de continuar me descobrindo. Por isso... (vasculhei meu peito o dia todo, buscando uma maneira mais suave de te dizer, mas não encontrei) não sei quando volto.
     Te amo.
                                          Ana
PS: O que é voltar?




16.  Rio, maio de 2005
     Ana,
     Tudo imprimia em mim a sensação de que não voltarias. Só eu mesmo tentava resistir a essa idéia. Agora não sei como abrandar o sobressalto que se apossou de meu peito e atravessar a aridez que permeia minhas horas.
     Tento me reconfortar com banalidades, como a de que estamos sempre sós. Estamos sempre sós. Sempre sós. Sós.
     Tento, mas não consigo.
     De noite, revolves os meus sonhos, inquietando o meu dormir. Depois, manhã cedo, quando tudo dorme, me fazes continuar sonhando, embora acordado.
     Apenas porque a vida é curta, um pouco de mim será eternamente teu.
     Não sei mais como lidar com meus desejos de ti          
Pedro
     PS: Guardei as pétalas das rosas: elas insistem em conservar o teu cheiro.

(...)

17. Rio, março de 2006
     Ana querida,
     Cerca de dez meses depois de minha última carta, volto a sentar-me para te escrever.
     Neste tempo todo, descobri que a pérola azul que procurava, estava já dissolvida em meu sangue e que, me desenhar em palavras de papel, na verdade é garimpar pérolas multicoloridas em meus fluídos.
     Continuo sonhando contigo. Sinto no entanto que meus sonhos percorrem contornos de um dos universos possíveis.
     No álbum de meu peito, teus retratos adquiriram tonalidades claras e teu nome escrito no pó da vidraça é agora o recorte de algo tão infinito e indecifrável quanto o que ele representa.
     Continuo também não sabendo muito bem quem sou e por qual misterioso milagre me encontro aqui. Tampouco para onde vou, onde vamos...
     Teu riso deixou marcas indeléveis em meu caminhar e, se existisse a palavra obrigado, eu te diria obrigado, por isso. Te amo mais porque me amo mais. Acho que precisei me perder em ti, para me encontrar em mim.
     Um beijo para ti, sejas tu quem fores.                                   
Pedro
PS: No vaso grande da área, onde pensei só existirem pequenos galhos secos, um botão de rosa ameaça florir.



domingo, 21 de outubro de 2012

DJEMAA EL FNA


Dizem ser a maior praça de todo o continente africano. Djemaa el Fna em Marrakech, Património Imaterial da Humanidade, será seguramente o lugar mais animado do planeta. A tradução de Djemaa el Fna, ou uma das traduções, é “Assembleia dos Mortos” pois aqui, antigamente, criminosos eram executados e suas cabeças expostas, como exemplo. Mas em lugar algum do mundo se poderia encontrar mais vida: acrobatas, vendedores ambulantes de água, dançarinos, músicos, malabaristas, barracas de comida, contadores de histórias, curandeiros, saltimbancos, faquires, encantadores de serpentes, macacos amestrados, engolidores de espadas, dentistas, vendedores de plantas medicinais, chás para todos os males, doces típicos, cartomantes, vendedores de peles, de pedras, de ovos de avestruz, unguentos, sabão em pasta, especiarias, chapéus de palha, tatuagens em hena, tâmaras, suco de laranja, brinquedos…

Tudo acontece ao mesmo tempo, com sons e aromas exuberantes…
É só escolher o espetáculo e a sessão.

DJEMAAA EL FNA. A praça, de manhã, quase vazia. O património são as pessoas que por lá circulam com suas artes



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Gurupá e os Beneditos


Dou-me conta que a crônica que se segue foi inserida na tese de mestrado de Maria Aparecida Ribeiro, 
foi “vendida”, num site de compra e venda de textos, 
publicada no jornal “A Ponte” da Catembe (Moçambique), 
publicada no jornal “O ECO” da Ilha Grande (Rio de Janeiro), 
publicada na revista on line “Canteiro de Obras”, 
plagiada num livreto de crônicas que comprei em Fortaleza há algum tempo, 
publicada no livro “Álbum de Retratos”, 
mas… não ainda no meu modesto Blog. Aqui vai então:

Gurupá, Baixo Amazonas. Aqui, todas as pessoas, ou quase, se chamam Benedito. Para que se possa saber de quem se fala ou a quem se designa, as pessoas são referenciadas pela profissão (Benedito padeiro), pelo lugar onde moram (Benedito da caixa d’água), ou até por alguma particularidade física (Benedito do braço comprido).
       Seu Benedito, o velho, fala-me do forte de Santo Antônio (que todos chamam de forte de São Benedito), da igreja que, para não me tornar repetitivo, não mencionarei em louvor de quem foi erigida, e de mil e uma outras coisas que meus ouvidos não têm capacidade plena de absorver, tudo com a voz pausada de quem tem todo o tempo do mundo para contar histórias.
       Caminho ao acaso pelas poucas ruas do lugar, ouço os Beneditos se cumprimentando de um lado para o outro da calçada e faço um lanche na lanchonete São Benedito.
       Às dezoito horas, os alto-falantes da cidade tocam a ave-maria e eu regresso ao cais, emoldurado pelo dourado vermelho do sol poente. No caminho, detenho-me a observar o incipiente comércio de fim de tarde à beira-rio e a tranqüilidade absoluta que transpira das coisas, das árvores, do rio e dos olhos calmos da gente local. E penso que um dia volto! Volto, mudo o meu nome para Benedito e me dissolvo na paz do lugar, escrevendo crônicas, para depois com elas fazer aviõezinhos de papel e atirá-los do alto em direção ao leito do rio. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O CAVALEIRO ILUMINADO


Ayamonte, pequeno burgo fronteiriço a Portugal, mais precisamente a Castro Marim. Separa-os ou, como veremos, une-os o Rio Guadiana. Melhor, algo sob o rio. Há quem garanta que existe um túnel debaixo do rio, unindo as vilas.
― Escutam-se ruídos vindos de lá de baixo, sons de vozes, cascos de cavalos… tem um túnel lá, sim.
A idosa senhora fica abanando a cabeça, afirmativamente.
Banco de jardim em Ayamonte (azulejos feitos em Triana)
Sentei-me ao lado dela, num belíssimo banco coberto de azulejos, na praça principal da vila.
― Ayamonte é o lugar mais misterioso de toda a Espanha ― garante, sem parar de abanar a cabeça; e, após uma pausa ―um cavaleiro das Idades Médias passa pelas ruas da vila nas noites de lua nova. Todo iluminado… Assim…
A senhora abre os braços em direção ao sol.
Aya, do ibérico antigo, significa monte. Os romanos, quando aqui chegaram, traduziram a palavra Aya: Mon-tij, que significa, também, monte.
Talvez o nome mais apropriado para o local seja Montemonte
― Mas esse… esse cavaleiro, quem já o viu?
―Ah… muita gente, mas só pelas costas. Os olhos dele furam o coração das pessoas...
      ― Já furaram alguém?
― Já! ― exclama ela ― o último foi no ano passado. Um vizinho meu, por aposta, disse que olharia de frente o cavaleiro e que nada lhe ia acontecer. Quando escutaram os cascos e os cachorros uivando, ele saiu à rua e olhou o cavaleiro.
A idosa senhora faz uma pausa longa, sem parar de abanar a cabeça.
― Mortinho! Caiu mortinho sem um pio sequer. Olhe, é de lá que o cavaleiro vem. Do outro lado, de Portugal. Passa por dentro do túnel e vem procurar a noiva… Ele não sabe que ela se enforcou há muitos anos…
Papeamos um pouco mais, despeço-me e dirijo-me à vizinha Isla Canela. A senhora ficou me acenando, levantando um pouco a mão direita e abanando a cabeça, afirmativamente.
Tomando anotações, em Isla Canela
Em Isla Canela uma água morna convida a um mergulho. Palmeiras ao longo da margem. Nas mansões à beira mar, boa parte delas à venda, os ricos saboreiam conquilhas, regadas a vinho.

No mar em frente, os pobres catam conquilhas.

domingo, 1 de julho de 2012

MENDIGO SINCERO...



Finalmente um mendigo sincero e honesto! Encontrei-o no Chiado, em Lisboa. Organizado, ele tem recipientes para várias opções de esmolas: para comprar whisky ou vinho ou cerveja, ou até para se curar de uma possível ressaca.
Gostei. Coloquei um donativo no recipiente destinado à cerveja.

SETE GRAUS ABAIXO DE ZERO!!!!!


Entre o Rio e Paris. A passageira ao meu lado ressona alto. Nem os gritos de Bruce Lee que saem dos auscultadores lhe perturbam o sono. Do outro lado um outro pede mais duas garrafinhas de vinho: se até agora quase não parou de falar (sem dar a mínima para o fato de ser ou não escutado), com mais duas garrafinhas…
Finalmente o comandante anuncia a aproximação à pista do aeroporto Charles de Gaulle. “São oito da manhã, hora local. O tempo apresenta-se bom, sete graus negativos. Tenham todos um excelente resto de dia.” Teria eu escutado bem? O tempo apresenta-se bom, com sete graus negativos? Será ironia do comandante?
Na sala de embarque, enquanto aguardo a conexão para Lisboa, e depois de já ter dado duas voltas ao aeroporto, tentando em vão esquentar os pés, visto os casacos de lã que trouxe, embrulho-me no cobertor que peguei “emprestado” da Air France e enrosco-me num dos poucos aquecedores existentes na sala, que tentam, sem sucesso, elevar a temperatura ambiente.
Pela vidraça vislumbro o que a princípio pensei serem seres humanos. Impossível! Com sete graus negativos serão certamente robôs telecomandados.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

LEONOR... que trabalheira!





Eu e minha linda neta Leonor, no casamento da Natacha (26 maio 2012)... a bichinha deu um trabalho... Como bom e eficiente avô, driblei ao máximo as instruções fornecidas pelos pais dela!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu mundo em Morsing

O riacho Boqueirão Sacra Família encheu tanto que cobriu a rudimentar ponte que liga a casa do sítio onde me hospedo, ao resto do mundo. Estou isolado. O celular não tem sinal, o que aliás nunca aconteceu por aqui. Chove a cântaros. A energia elétrica caiu. A água só sobe à caixa de água com o auxílio de uma bomba elétrica. E o riacho cntinua subindo. Não se vêem os pilares da ponte. São dezenas de córregos que alimentam o Boqueirão ao longo do seu leito, em direção ao rio Piraí. Minhas provisões dão para vários dias, desde que me alimente de atum em lata e macarrão.

Imagino-me num mundo onde só eu vivo e de onde não é possível sair. Tenho livros, papel e caneta. E computador, mas sem energia... E tenho o silêncio, agora perturbado pelo som do correr das águas, correr esse que afiança inviolabilidade a meu mundo. Do alçapão do sótão, uma fileira de morcegos me espreita. Pensarão: porque diabos esse cara sorri, olhando o riacho?

Passam-se dois, três, quatro dias.

No quinto dia as águas descem e a ponte dá passagem. Meu mundo deixa de existir. Aparece um indivíduo de um sítio vizinho querendo saber se necessito de algo. Sim, respondo, gostaria que destruíssem a ponte ou que a cobrissem de água para sempre. Ele ri, eu finjo que rio.

Regresso ao Rio de Janeiro, cabisbaixo, atravessando a ponte...

domingo, 31 de outubro de 2010

O DEIXAR PASSAR O TEMPO, NO ALENTEJO...



Deixando o tempo passar...
Ao fundo, o burgo de Monsaraz

MONSARAZ


As casas e calçadas em xisto, os queijinhos frescos de Dona Maria da Graça (do Telheiro), o vozerio dos pastores reunindo as ovelhas, os sulcos para aferição do côvado e da vara na porta da vila, o cheiro de estevas no ar, o ensopado de borrego e a sopa de panela de galinha do campo, no Alcaide e ainda a surraburra (que eu nem sequer quis olhar...), as memórias submersas no Alqueva, o urro de morte do touro entre as muralhas do castelo, o deixar passar o tempo alentejano, as trilhas infinitas, monte acima, monte abaixo em direção ao alagado, o piar dos pássaros, a receita de açorda com beldroegas e poejo da Dona Ana, as lareiras que parecem salas de estar, o silêncio, estou em Monsaraz!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MORSING E O SILÊNCIO


Em Morsing outra vez... embebido em silêncio...
O silêncio, o mesmo e único silêncio que antecede a descoberta, precede o espanto, o medo, a alegria inesperada.
No ambiente alegre e ruidoso do circo, antes do triplo salto mortal, o silêncio é total. Cada um faz para si, em algum instante durante a batida de um pênalti, um breve silêncio.
Pedindo silêncio, o maestro bate a batuta antes de assinalar à orquestra o início da sinfonia. Para muitos escritores, precedendo a aparição da palavra que procuram encaixar nas encruzilhadas de pensamentos e emoções, há uma fração de tempo em que o silêncio é total.
Há um silêncio antes da primeira respiração e do primeiro choro de um recém nascido.
"O resto é silêncio" são as últimas palavras de Hamlet. "Depois do silêncio, o que mais se aproxima do inexprimível, é a música", disse A. Huxley.
Segundo as lendas, no início dos tempos, antes do Big Bang não havia o silêncio. Ele surgiu pela primeira vez para que pudesse acontecer toda a criação.
No final dos tempos, acredita-se, o silêncio deixará também de existir.
Deixará de existir sim, em toda a parte, mas nunca em Morsing! Em Morsing o tempo parou, aqui não haverá fim; e não havendo fim, nunca o silêncio deixará de existir.
Melhor assim: sempre terei um lugar onde me enroscar no silêncio...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

À PROCURA DE BORGES (em Buenos Aires)

Ficamos em um apartamento no bairro La Recoleta e logo me vem à memória as últimas linhas da poesia de Borges, "La Recoleta" (in "Fervor de Buenos Aires" de 1923): "... estas coisas pensei em Recoleta, no lugar das minhas cinzas."

À procura de Jorge Luis Borges, em seis passos:
1- Numa das inúmeras livrarias da Av. Corrientes, compro "Otras Inquisiciones", uma edição de La Nacion. Em seguida vou à livraria El Ateneo, na Av. Santa Fé. El Ateneo Grand Splendid era um teatro onde, entre muitos outros, se apresentou Carlos Gardel. Depois virou cinema e, a partir de 2000, uma fantástica livraria, justamente considerada uma das mais belas do mundo. No antigo palco, agora uma cafeteria, tomo um "cortado" enquanto folheio "Borges, un escritor en las orillas", de Beatriz Sarlo. Nas frisas, leitores se acomodam em poltronas com livros nas mãos, outros simplesmente passeiam entre as estantes e turistas tiram fotos. Passeio também pelas estantes tentando imaginar em quais Borges se deteria.

2- Na Calle Mexico, na antiga Biblioteca Nacinal, hoje uma sala de concertos, onde Borges foi diretor por quase 20 anos, a recepcionista informa que não podemos visitá-la, pois a sala está encerrada. Minto, dizendo que vim de Portugal EXCLUSIVAMENTE para ver o lugar onde ele trabalhou. Não resulta. Insisto. Nada. Imploro. Sou atendido!
Na sala central ela aponta o escritório dele e eu peço para tirar uma foto. Foto, não pode. É proibido. Mas... se for rápido... Peço-lhe então para ver a escada em caracol onde Borges "escondeu" o "Livro de Areia" e na qual se teria inspirado para criar a sua escada em caracol do conto "A biblioteca de Babel". Digo-lhe que viajei milhares de quilômetros só para ver essa escada. Ela me olha incrédula e, um pouco relutante, conduz-nos à direita do vestíbulo, e nos abre uma porta. E eis que surge a escada que, talvez pela escuridão, parece fundir-se no alto. De novo, e apesar da "proibição de fotografar", bato uma foto da escada.

3- Jardim Japonês: aqui, Borges costumava passear com Maria Kodama, sua esposa.
Vimos uma miríade de "tsurus", aprendo que "sakura" significa cerejeira e atravessamos várias pontes, eu sempre tentando desviar os olhos das horrendas carpas.

4- Procuro, na Calle Tucumán - 838, a casa onde Borges nasceu. Não existe mais. Informa um funcionário de um estacionamento vizinho, apontando um edifício de vários andares, ainda em construção, que se ergue no local onde a casa existiu...





5- Na Tortoni, bar-cafeteria que Borges frequentava, enquanto aguardo que o antipático funcionário me atenda, tiro uma foto ao lado da estátua dele, sentado na mesma mesa onde tantas vezes proseou com Bioy Casares.

6- Centro Cultural La Recoleta. II Bienal Borges x Kafka (a primeira foi em Praga). Duas exposições: "Labirinto" e "Livros de areia". Esta última constitui-se de duas caixas quadrangulares de um metro e pouco de largura cada, com areia. O simples enfiar das mãos na areia produz sobre ela uma quase infinita e variada projeção de textos de Borges, que mudam a cada movimento das mãos.

No saguão, a viúva de Borges, Maria Kodama, está rodeada por uma legião de fotógrafos. Aproximo-me e peço para tirar uma foto. Ao escutar meu sotaque, ela pergunta-me de onde sou e assim entabulamos uma curta conversa sobre Borges e lugares de Portugal. Os fotógrafos não param de disparar os flashs. Quem será aquele desconhecido, de chapéu na cabeça, que capta as atenções da convidada principal? Seguramente, no dia seguinte, serei capa de algum diário da capital portenha... O título: "Maria Kodama em animada conversa. Quem será o desconhecido?".




Nos fornecem várias explicações para a cor da Casa Rosada. Fico com a que mais me impressiona: cal misturada com sangue de animais que eram abatidos na praça de Maio. Em La Boca tiramos uma foto dançando tango... e aprendo que as cores do time de futebol Boca Juniors, azul escuro e amarelo ouro, se devem ao fato de que um dos dirigentes do clube, sentado no cais do porto, decidiu que as cores do clube seriam as da bandeira do primeiro navio que entrasse no porto. E assim foi: o primeiro navio que entrou, portava bandeira sueca!




Buenos Aires dos livros e livrarias, dos bares onde se disponibilizam pequenas bibliotecas com livros de Borges (projeto "Yo leo en el bar"). Bs As, Capital Mundial do Livro 2011, pela UNESCO.







Buenos Aires do bom vinho, dos fileteados, da deslumbrante arquitetura, dos frondosos parques com paineiras, jacarandás e tipuanas tipu, e... lindas mulheres!

Sim, também assistimos a uma sessão de tango, comemos parrilla, empanadas e alfajores, visitamos o Museu de Arte Popular e o monumento a Carlos Gardel, e as cores de La Boca. E... principalmente papeamos com amigos, no caso, Marta e Eduardo simpáticos portenhos que nos levaram a casa de Pepe (o primeiro à esquerda) e Marta (a primeira à direita) para saborearmos a melhor PARRILLA de Buenos Aires, acompanhada de um divino Museo malbec 2007.


Nem Rio de Janeiro, nem Madrid. Nem Montreal, nem Milão. Nem São Paulo, nem Lisboa.

Imperdível mesmo é BUENOS AIRES!

sábado, 27 de março de 2010

Valença dos mascates, do "Livro sem Fronteiras", da pecuária, do... café.

Valença, estado do Rio. Perseguindo a prazerosa linha de fazer amigos (ou reatar velhas amizades) reencontro Victor (http://www.victorsgomez.com/), velho companheiro de lides literárias e teatrais dos idos de 1980. Ele nos encaminhou para uma das mais belas salas de visitas junto à cidade, a cachoeira Ronco d'Água. Lá, colocamos as prosas em dia.








Ele me detalhou o projeto "Livro sem Fronteiras" (http://fernandomoncao.blogspot.com/). Genial: uma biblioteca aberta onde adultos e crianças, sem qualquer controle, poderão pegar livros e lê-los, emprestá-los a quem por eles se interessar e espera-se... espera-se... um dia retornem à biblioteca para que outros leitores deles possam usufruir. A ideia é que os livros circulem de tal modo que o seu depositário venha a ser o conjunto de seus leitores. Eu digo AMÉM!


Ficamos no Hotel Valenciano, uma não muito bem conservada construção de 1917 onde, nos tempos em que o Rio era a capital da república, se conjuravam e urdiam relações de poder. Passeamos pelos belos jardins da cidade: o "de cima" e o "de baixo". Este, maior e muito bem conservado, fica em frente à Catedral católica, margeado pela Igreja Universal do reino de Deus, ao lado do Centro Espírita de Valença, perto da Igreja Internacional da Graça de Deus (a Igreja Sobrenatural da Labareda de Fogo fica em outro bairro...).


Subimos a pé (o carro "morreu" na subida...) a Serra dos Mascates (http://www.serradosmascates.com/) com o falante (e como fala...) André. Do topo avistam-se todos os possíveis recortes de montanhas, com Valença aos pés! Mascates, pois era por aqui que passavam os ditos, vindos de Minas, e aqui descansavam para prosseguirem, no dia seguinte, em direção ao litoral. Desse "descanso", nasceu Valença.




Valença: a antiga (1914) estação de trem é agora a rodoviária, as Oficinas da Central do Brasil (1914) abrigam um supermercado, o belíssimo coreto do jardim "de baixo"...

Faltou dar um pulo a Conservatória, mergulhar no Açude da Concórdia e papear mais com os antigos e novos amigos.

Melhor assim: é bom ir com motivos para voltar...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

DE NOVO EM MORSING!

De novo em Morsing. Um calor de rachar. Mesmo assim, dou uma volta pelo vilarejo. Os maiores edifícios são os da Igreja Metodista, da Assembleia de Deus e da Igreja Católica. Uma dezena de botequins e... nenhuma farmácia. Deste modo, o vilarejo destoa dos dizeres de William K. Campbell em seu livro (creio que ainda não traduzido para o português) THE DARK FACE OF LATIN AMERICA: "... os centros urbanos brasileiros, independente da quantidade de habitantes, estão invariavelmente entupidos de igrejas, botequins e farmácias".

Morsing: o picapau comendo banana, o surpreendente Dão Meia Encosta, os morcegos entocados na laje com as cabeças de fora, a alegria da Rô mexendo na terra, a briga das formigas com as abelhas no tronco da goiabeira, o doce de goiaba, a enxurrada do final de tarde, o tempo parado. E o silêncio que, como se sabe, é uma mostra de que o tempo parou.


Morsing, o trem continua a passar, a apitar, mas não para.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ILHA DE PAQUETÁ

Outra ilha...

Pedaço do Rio antigo, no casario, nas luminárias das ruas, nos espaços amplos e, principalmente, no ritmo pausado das gentes.

Apenas cinco veículos a motor. Nas duas horas e meia que circulei pela ilha de bicicleta, entrando em todas as ruas, não deparei com nenhum. Por isso meu espanto com os dizeres de uma placa metálica afixada em uma rocha numa das curvas das empoeiradas ruas: " ..., amigo e amante de Paquetá, aqui faleceu vitimado por um trator".

Aqui, Madame Curie (aquela mesma que ganhou dois Prémios Nobel) chegou de hidroavião para passar uns dias. Também Dom João VI aqui aportou. O enferrujado canhão usado para saudar sua chegada lá está exposto.

Na Praia dos Tamoios, um pedaço de África: um majestoso embondeiro! Conta a lenda que um escravo moçambicano, pressentindo que o arrancavam de seu chão natal para sempre, trouxe a semente e aqui a plantou, para que um dia seus descendentes pudessem, seguindo a tradição, ser enterrados à sua sombra. (é o que conta a lenda, não sei se é verdade, tanto mais que fui eu próprio que a inventei). Numa placa presa ao tronco da árvore, pode-se ler:
"Sorte por longo prazo...
A quem me beija e respeita.
Mas sete anos de atraso...
A cada maldade a mim feita."


Pelo sim e pelo não, beijei-lhe o tronco.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MOÇAMBIQUE

Só hoje consegui alinhavar alguns pensamentos que cercam uma viagem que fiz a Moçambique, há tempos atrás. Aqui vão eles, transformados em 3 pequenos textos:

SENTIDO INVERSO (Brasil - Moçambique)

Trinta anos depois de ter atravessado o Atlântico Sul, refaço a rota, no sentido inverso. Já no ar, descubro o que suspeitava: não estou viajando para o meu país, estou deixando-o. Rearranjo os pensamentos e desfaço as malas arrumadas há tempos, em becos do meu peito. Depois, troco as emoções de lugar e refaço as bagagens, com novo olhar.
Estou indo fazer turismo, nas gavetas empoeiradas de minha própria memória.

SALA DE ESPERA

Maputo, Moçambique. São tantos os buracos nas ruas, que um dito local afirma que aqui, bêbado, é quem dirige em linha reta. Estaciono o carro para bater uma foto, e logo dois ou três persuasivos vendedores ambulantes me assediam. Compro bananas, que são vendidas a peso. Indeciso quanto ao número delas que devo colocar no prato para perfazer um quilo, indago o vendedor. A resposta não poderia ser mais honesta:
- Ah... isso depende.
Ante meu olhar admirado, o vendedor prossegue:
- Depende da balança, patrão.
A venda ambulante é a única alternativa para o desemprego que grassa por estas bandas. Nas calçadas, sozinhos ou em grupo, negros em atitude de espera, braços cruzados. Nos mercados, sozinhos ou em grupo, negros conversam entre si, ou olham, mudos, as pontas desgastadas dos sapatos. Na marginal, sozinhos ou em grupo, negros fitam a linha do horizonte, esperando.
Maputo é hoje a maior sala de espera do planeta.



O ESPINHO DA MICAIA*
Praia do Tofo (Moçambique). Acordo com o nascer do sol e vou para a praia. Caminho ao longo da indefinida linha divisória entre o mar e a areia. Colho conchas e revejo as temíveis garrafas azuis, pequenos cnidários urticantes. Recordo as rochas que deixei há trinta anos, as dunas onde acampei e as tranparentes águas do Índico. Subo a uma duna. Lá do alto alcanço com o olhar toda a baía, a praia até perder de vista. Penso que ela é igual a algumas da minha terra. Porém, no instante em que assim penso, no preciso momento em que outra terra que não Moçambique ocupa dentro de mim, a primazia de ser a minha terra, piso, inadvertidamente num galho de micaia, que fura meu pé, fazendo-o sangrar. Dobro-me, retiro o espinho com cuidado e olho em volta. Esfrego o pé para aliviar a dor e penso se a "agressão" da micaia terá sido uma manifestação de desagrado, de desapontamento em relação ao meu pensamento, para com o solo que me viu crescer.
*Micaia - árvore da família das leguminosas, espinhosa, com folhagem miúda e rara (do "ronga" n' kaia)