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domingo, 15 de setembro de 2013

La Giralda, Sevilla

Até aos sinos a construção é árabe
Reprodução da imagem do topo da Giralda (note-se a "vela"), à entrada da Catedral
A torre, dos sinos para cima é construção cristã. Até aos sinos é árabe. E quatro séculos separam as duas construções. Enquanto subo a interminável escadaria, reparo que a par com os degraus existe uma rampa. Finalidade? Se eu suo subindo as escadas, o que dizer de um velho “muezin” que as tinhas que subir cinco vezes ao dia, para chamar os fiéis às orações? Os sábios árabes construíram então rampas para, a cavalo, subirem até ao topo.
Olho em volta, não vejo cavalo algum. Muito menos elevador.
Prossigo, arfando, escadas acima.

Giralda, pois a estátua que está no topo da torre, gira (daí o nome: Giralda). Há uma reprodução dessa imagem no solo, à entrada da Catedral, bem perto da torre. Nela se pode ver uma espécie de “vela” presa à estátua que, com o vento, a faz girar.

sábado, 9 de março de 2013

MACEIÓ


Maceió, Alagoas, Brasil

No check-in do voo que me levará a Maceió, apresento, não sem um certo constrangimento, um pedaço de papel, onde havia escrito à mão, o número de meu e-ticket. A moça olha o papel, vira-o de um lado e do outro, me olha, volta a olhar o papel e… aceita meu rabisco.
Já em Maceió, no aeroporto Zumbi dos Palmares penso, olhando as modernas instalações, o que Zumbi acharia de tudo aquilo. Dispenso os insistentes convites das empresas de táxi, e pego um ônibus que acabava de entrar no meu campo de visão: Aeroporto-Ponta Verde, justo para onde pretendo ir. Assim que entro, descubro que não só entrei num ônibus, mas também no século passado: a cobradora entrega-me um bilhete de papel numerado (uma numeração sequencial, onde meu número é único), com a data e hora do trajeto manuscritos por ela mesma, à minha frente.
Saio do ônibius exatamente na porta do hotel que me haviam reservado e entro de novo no século atual: WiFi, chave eletrônica do apartamento, atendimento computadorizado.
Maceió, da brisa constante à beira mar, das tapiocas e da água de coco insuperável. Do calçadão orlado de coqueiros e amendoeiras, e também acácias iguais às daquela cidade africana voltada para o Índico. Aqui os veículos param ANTES da faixa de pedestres! A primeira vez que um ônibus assim procedeu, não arrisquei atravessar: pensei que tivesse enguiçado e que a qualquer momento fosse avançar.
Maceió do Motel “Ceqsab”Fico imaginando a cara do espertalhão que, num primeiro encontro, pergunta à tímida moça: “Onde você quer ir?”
Como acontece em todas as cidades, aqui há várias Maceiós. Aquela onde me hospedo, desde que se fique voltado para o mar, portanto, de costas para os espigões que que parecem aumentar em número da noite para o dia, é belíssima. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SARDINHAS ASSADAS

RUA DA MINA

Rua Direita, Rua da Mina, Rua do Arco, Rua da Carreira. Estou numa vila ou cidade portuguesa? Errado. El Jadida, antiga Mazagão, em Marrocos, fica para lá, mas bem para lá de Marrakech. Na costa, a oeste. Ficamos na Cité Portugaise e logo somos invadidos pelo cheiro de sardinhas assadas.
A CISTERNA LUSA
─ C'est bon. C'est comme on fait les portugais. ─ Diz-me o marroquino, virando as sardinhas no fogareiro a carvão.
Os lusos não deixaram por aqui apenas a monumental muralha da vila, os canhões e baluartes e a cisterna.
MURALHAS DA CITÉ PORTUGAISE
Em 1769, cansado das investidas árabes, Marquês de Pombal fez transportar toda a população de Mazagão para o Amapá, no norte do Brasil. Lá eles fundaram Nova Mazagão.


Com direito a sardinha assada...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

SETÚBAL, pura emoção...

Praia da Anixa, vista da Serra da Arrábida
Fomos brindados com um texto da caiçara (Ilha Grande - Rio de Janeiro) Neuseli, do qual extraio algumas partes, com a devida vénia.


Três dias em Setúbal. Momentos inesquecíveis, pura emoção. Céu azul, lua cheia, calor e brisa refrescante. Presente especial: Arrábida, paisagem única, montanha mergulhada no mar. Castelo São Filipe, o perfume das ervas aromáticas nas manhãs, nas tardes, nos parques, nas estradas. Atalho para os sobreiros. A argila, o toque do barro na olaria, o retorno às origens, às lembranças de infância. Feira de Santiago e as bolachas Piedade, as farturas, o show ao ar livre. Mercado do Livramento: da terra e do mar para a mesa. Sardinha na brasa, onde tem fumaça tem peixe assado. E os queijos e os doces. Tudo regado com vinho.
Três dias em Setúbal.

domingo, 1 de julho de 2012

AS COISAS QUE MEU IRMÃO CONTA…



Caminhamos, eu e Jô, do Jardim da Estrela (Lisboa) até à Praça da Armada, em Alcântara. No Jardim da Estrela, conta ele (e eu não sei se será verdade, tal a fatia de inusitado que permeia o que ele diz) que a mãe e a tia brincavam às escondidas entre migalhas de pão jogadas aos patos, marrecos, gansos e afins. Os que por lá hoje andam seriam descendentes daqueles. Às escondidas brincavam elas também no Palácio das Necessidades, ali mesmo ao lado, onde elas descobriram uma passagem secreta que ia dar aos… aposentos do Rei Dom Carlos.
  Mas Jô… aos aposentos do rei?
  Sim, claro! – Responde meu irmão com o olhar mais sincero do mundo – O rei mesmo.
Chegamos à Praça da Armada que o povo designa de Praça do Zé do Garfo. O Zé é uma estátua de Neptuno, no centro da praça e o “garfo”, um tridente que ele tinha numa das mãos. Tinha, pois o tridente foi roubado faz tempo… Então, na Praça do Zé do Garfo, chamemos-lhe também assim, morou o bisavô dele o qual foi alfaiate dos filhos do rei. Certa vez o filho do dito alfaiate pegou “emprestada” uma farda de oficial para impressionar a namorada. Resultado: foi preso e deportado para África. Por lá penou anos a fio… Mesmo ao lado morava seu tio Casanova, IV Visconde da Várzea da Ourada. De frente para a praça residiu seu avô que, após calafetar aporta e a janela do banheiro, ligou o gás, suicidando-se: administrava um cassino clandestino flutuante de um figurão político, passou a mão nos lucros do dia e foi descoberto. Bem ao lado moravam os pais. Tinham um gato que odiava o pai e demonstrava-o urinando em todas as fotos que dele encontrava.
E meu irmão vai desenrolando histórias.
  Podias escrever um livro – digo-lhe – nem precisas inventar (mais) nada. É só relatares fatos acontecidos.
O que ele conta ultrapassa a ficção. Ou… é ficção.
Retemperamos forças numa tasca ao lado da praça

(tomara que ele não leia esta postagem)

Amor à primeira vista...

Foi assim, à primeira vista. Olhei, gostei, fiquei!

MENDIGO SINCERO...



Finalmente um mendigo sincero e honesto! Encontrei-o no Chiado, em Lisboa. Organizado, ele tem recipientes para várias opções de esmolas: para comprar whisky ou vinho ou cerveja, ou até para se curar de uma possível ressaca.
Gostei. Coloquei um donativo no recipiente destinado à cerveja.

SETE GRAUS ABAIXO DE ZERO!!!!!


Entre o Rio e Paris. A passageira ao meu lado ressona alto. Nem os gritos de Bruce Lee que saem dos auscultadores lhe perturbam o sono. Do outro lado um outro pede mais duas garrafinhas de vinho: se até agora quase não parou de falar (sem dar a mínima para o fato de ser ou não escutado), com mais duas garrafinhas…
Finalmente o comandante anuncia a aproximação à pista do aeroporto Charles de Gaulle. “São oito da manhã, hora local. O tempo apresenta-se bom, sete graus negativos. Tenham todos um excelente resto de dia.” Teria eu escutado bem? O tempo apresenta-se bom, com sete graus negativos? Será ironia do comandante?
Na sala de embarque, enquanto aguardo a conexão para Lisboa, e depois de já ter dado duas voltas ao aeroporto, tentando em vão esquentar os pés, visto os casacos de lã que trouxe, embrulho-me no cobertor que peguei “emprestado” da Air France e enrosco-me num dos poucos aquecedores existentes na sala, que tentam, sem sucesso, elevar a temperatura ambiente.
Pela vidraça vislumbro o que a princípio pensei serem seres humanos. Impossível! Com sete graus negativos serão certamente robôs telecomandados.

 “Onde te vi despir, regresso agora para adormecer ou chorar…”. Frase escrita (autor: J. Co. D.) num muro em uma rua de Lisboa, perto do Largo de Dona Estefânia. Melancólica, tristonha, enlutada, dramática… lusitana. Penso como apareceria, usando o mesmo mote, essa frase numa parede de uma rua no Rio de Janeiro. E reescrevo-a mentalmente: “Onde te vi, regresso agora para te despir e adormecer agarrado a ti…”.
Adiante recebo um panfleto do Mestre Astrólogo e Curandeiro, Professor Sharifo Mustafa. No texto está escrito que ele “descobre todas as causas, ajuda a resolver todos os problemas, complicadíssimos. Tem soluções fáceis e com garantia”.
Seguramente ele saberá o porquê da diferença entre a frase escrita e a que eu imaginei. 
Vou lá!

sexta-feira, 29 de junho de 2012

LEONOR... que trabalheira!





Eu e minha linda neta Leonor, no casamento da Natacha (26 maio 2012)... a bichinha deu um trabalho... Como bom e eficiente avô, driblei ao máximo as instruções fornecidas pelos pais dela!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

São Paulo, São Paulo, São Paulo!












São Paulo. Parques, museus, trânsito louco e poluição...
No Mercado Municipal peço um sanduíche de mortadela. Impossível abocanhá-lo, tal o volume de carne. O sanduíche desfaz-se nas minhas mãos. Olho em volta, procurando auxílio. Reparo que alguns comensais conseguem degustar o dito, com maestria. Assim não vale: o meu não veio com livro de instruções.
Atravesso o viaduto do Chá, vou ao Museu da Língua Portuguesa, Pinacoteca e Sala São Paulo. Perco-me no Ibirapuera e no Parque Alfredo Volpi.

Depois subo ao topo da Torre do Banespa. Documento com foto. Não pode levar mochila nem boné. Boné não pode? Não, não pode. Porquê? Não pode! Sofre de vertigem, labirintite? Se sofre, não pode subir. E rappel lá de cima, pode? Trinta e cinco andares, 161 metros, mais 20 centímetros, mais 2 milímetros. Como é que mediram essa coisa com tanta precisão? Também não pode jogar coisas lá de cima, nem cuspir. Ah... bom, melhor assim.

MASP e Livraria Cultura. Casa da Mortadela, ali mesmo, na outra esquina, pertinho do Bar Brahma. Ainda os graffiti dos Gêmeos, os músicos na Oscar Freire aos domingos e a Mercearia São Pedro, na Vila Madalena. E, no domingo, Liberdade: uma orgia alimentar...


São Paulo, São Paulo, São Paulo!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu mundo em Morsing

O riacho Boqueirão Sacra Família encheu tanto que cobriu a rudimentar ponte que liga a casa do sítio onde me hospedo, ao resto do mundo. Estou isolado. O celular não tem sinal, o que aliás nunca aconteceu por aqui. Chove a cântaros. A energia elétrica caiu. A água só sobe à caixa de água com o auxílio de uma bomba elétrica. E o riacho cntinua subindo. Não se vêem os pilares da ponte. São dezenas de córregos que alimentam o Boqueirão ao longo do seu leito, em direção ao rio Piraí. Minhas provisões dão para vários dias, desde que me alimente de atum em lata e macarrão.

Imagino-me num mundo onde só eu vivo e de onde não é possível sair. Tenho livros, papel e caneta. E computador, mas sem energia... E tenho o silêncio, agora perturbado pelo som do correr das águas, correr esse que afiança inviolabilidade a meu mundo. Do alçapão do sótão, uma fileira de morcegos me espreita. Pensarão: porque diabos esse cara sorri, olhando o riacho?

Passam-se dois, três, quatro dias.

No quinto dia as águas descem e a ponte dá passagem. Meu mundo deixa de existir. Aparece um indivíduo de um sítio vizinho querendo saber se necessito de algo. Sim, respondo, gostaria que destruíssem a ponte ou que a cobrissem de água para sempre. Ele ri, eu finjo que rio.

Regresso ao Rio de Janeiro, cabisbaixo, atravessando a ponte...

domingo, 31 de outubro de 2010

O DEIXAR PASSAR O TEMPO, NO ALENTEJO...



Deixando o tempo passar...
Ao fundo, o burgo de Monsaraz

MONSARAZ


As casas e calçadas em xisto, os queijinhos frescos de Dona Maria da Graça (do Telheiro), o vozerio dos pastores reunindo as ovelhas, os sulcos para aferição do côvado e da vara na porta da vila, o cheiro de estevas no ar, o ensopado de borrego e a sopa de panela de galinha do campo, no Alcaide e ainda a surraburra (que eu nem sequer quis olhar...), as memórias submersas no Alqueva, o urro de morte do touro entre as muralhas do castelo, o deixar passar o tempo alentejano, as trilhas infinitas, monte acima, monte abaixo em direção ao alagado, o piar dos pássaros, a receita de açorda com beldroegas e poejo da Dona Ana, as lareiras que parecem salas de estar, o silêncio, estou em Monsaraz!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MORSING E O SILÊNCIO


Em Morsing outra vez... embebido em silêncio...
O silêncio, o mesmo e único silêncio que antecede a descoberta, precede o espanto, o medo, a alegria inesperada.
No ambiente alegre e ruidoso do circo, antes do triplo salto mortal, o silêncio é total. Cada um faz para si, em algum instante durante a batida de um pênalti, um breve silêncio.
Pedindo silêncio, o maestro bate a batuta antes de assinalar à orquestra o início da sinfonia. Para muitos escritores, precedendo a aparição da palavra que procuram encaixar nas encruzilhadas de pensamentos e emoções, há uma fração de tempo em que o silêncio é total.
Há um silêncio antes da primeira respiração e do primeiro choro de um recém nascido.
"O resto é silêncio" são as últimas palavras de Hamlet. "Depois do silêncio, o que mais se aproxima do inexprimível, é a música", disse A. Huxley.
Segundo as lendas, no início dos tempos, antes do Big Bang não havia o silêncio. Ele surgiu pela primeira vez para que pudesse acontecer toda a criação.
No final dos tempos, acredita-se, o silêncio deixará também de existir.
Deixará de existir sim, em toda a parte, mas nunca em Morsing! Em Morsing o tempo parou, aqui não haverá fim; e não havendo fim, nunca o silêncio deixará de existir.
Melhor assim: sempre terei um lugar onde me enroscar no silêncio...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

À PROCURA DE BORGES (em Buenos Aires)

Ficamos em um apartamento no bairro La Recoleta e logo me vem à memória as últimas linhas da poesia de Borges, "La Recoleta" (in "Fervor de Buenos Aires" de 1923): "... estas coisas pensei em Recoleta, no lugar das minhas cinzas."

À procura de Jorge Luis Borges, em seis passos:
1- Numa das inúmeras livrarias da Av. Corrientes, compro "Otras Inquisiciones", uma edição de La Nacion. Em seguida vou à livraria El Ateneo, na Av. Santa Fé. El Ateneo Grand Splendid era um teatro onde, entre muitos outros, se apresentou Carlos Gardel. Depois virou cinema e, a partir de 2000, uma fantástica livraria, justamente considerada uma das mais belas do mundo. No antigo palco, agora uma cafeteria, tomo um "cortado" enquanto folheio "Borges, un escritor en las orillas", de Beatriz Sarlo. Nas frisas, leitores se acomodam em poltronas com livros nas mãos, outros simplesmente passeiam entre as estantes e turistas tiram fotos. Passeio também pelas estantes tentando imaginar em quais Borges se deteria.

2- Na Calle Mexico, na antiga Biblioteca Nacinal, hoje uma sala de concertos, onde Borges foi diretor por quase 20 anos, a recepcionista informa que não podemos visitá-la, pois a sala está encerrada. Minto, dizendo que vim de Portugal EXCLUSIVAMENTE para ver o lugar onde ele trabalhou. Não resulta. Insisto. Nada. Imploro. Sou atendido!
Na sala central ela aponta o escritório dele e eu peço para tirar uma foto. Foto, não pode. É proibido. Mas... se for rápido... Peço-lhe então para ver a escada em caracol onde Borges "escondeu" o "Livro de Areia" e na qual se teria inspirado para criar a sua escada em caracol do conto "A biblioteca de Babel". Digo-lhe que viajei milhares de quilômetros só para ver essa escada. Ela me olha incrédula e, um pouco relutante, conduz-nos à direita do vestíbulo, e nos abre uma porta. E eis que surge a escada que, talvez pela escuridão, parece fundir-se no alto. De novo, e apesar da "proibição de fotografar", bato uma foto da escada.

3- Jardim Japonês: aqui, Borges costumava passear com Maria Kodama, sua esposa.
Vimos uma miríade de "tsurus", aprendo que "sakura" significa cerejeira e atravessamos várias pontes, eu sempre tentando desviar os olhos das horrendas carpas.

4- Procuro, na Calle Tucumán - 838, a casa onde Borges nasceu. Não existe mais. Informa um funcionário de um estacionamento vizinho, apontando um edifício de vários andares, ainda em construção, que se ergue no local onde a casa existiu...





5- Na Tortoni, bar-cafeteria que Borges frequentava, enquanto aguardo que o antipático funcionário me atenda, tiro uma foto ao lado da estátua dele, sentado na mesma mesa onde tantas vezes proseou com Bioy Casares.

6- Centro Cultural La Recoleta. II Bienal Borges x Kafka (a primeira foi em Praga). Duas exposições: "Labirinto" e "Livros de areia". Esta última constitui-se de duas caixas quadrangulares de um metro e pouco de largura cada, com areia. O simples enfiar das mãos na areia produz sobre ela uma quase infinita e variada projeção de textos de Borges, que mudam a cada movimento das mãos.

No saguão, a viúva de Borges, Maria Kodama, está rodeada por uma legião de fotógrafos. Aproximo-me e peço para tirar uma foto. Ao escutar meu sotaque, ela pergunta-me de onde sou e assim entabulamos uma curta conversa sobre Borges e lugares de Portugal. Os fotógrafos não param de disparar os flashs. Quem será aquele desconhecido, de chapéu na cabeça, que capta as atenções da convidada principal? Seguramente, no dia seguinte, serei capa de algum diário da capital portenha... O título: "Maria Kodama em animada conversa. Quem será o desconhecido?".




Nos fornecem várias explicações para a cor da Casa Rosada. Fico com a que mais me impressiona: cal misturada com sangue de animais que eram abatidos na praça de Maio. Em La Boca tiramos uma foto dançando tango... e aprendo que as cores do time de futebol Boca Juniors, azul escuro e amarelo ouro, se devem ao fato de que um dos dirigentes do clube, sentado no cais do porto, decidiu que as cores do clube seriam as da bandeira do primeiro navio que entrasse no porto. E assim foi: o primeiro navio que entrou, portava bandeira sueca!




Buenos Aires dos livros e livrarias, dos bares onde se disponibilizam pequenas bibliotecas com livros de Borges (projeto "Yo leo en el bar"). Bs As, Capital Mundial do Livro 2011, pela UNESCO.







Buenos Aires do bom vinho, dos fileteados, da deslumbrante arquitetura, dos frondosos parques com paineiras, jacarandás e tipuanas tipu, e... lindas mulheres!

Sim, também assistimos a uma sessão de tango, comemos parrilla, empanadas e alfajores, visitamos o Museu de Arte Popular e o monumento a Carlos Gardel, e as cores de La Boca. E... principalmente papeamos com amigos, no caso, Marta e Eduardo simpáticos portenhos que nos levaram a casa de Pepe (o primeiro à esquerda) e Marta (a primeira à direita) para saborearmos a melhor PARRILLA de Buenos Aires, acompanhada de um divino Museo malbec 2007.


Nem Rio de Janeiro, nem Madrid. Nem Montreal, nem Milão. Nem São Paulo, nem Lisboa.

Imperdível mesmo é BUENOS AIRES!

sábado, 27 de março de 2010

Valença dos mascates, do "Livro sem Fronteiras", da pecuária, do... café.

Valença, estado do Rio. Perseguindo a prazerosa linha de fazer amigos (ou reatar velhas amizades) reencontro Victor (http://www.victorsgomez.com/), velho companheiro de lides literárias e teatrais dos idos de 1980. Ele nos encaminhou para uma das mais belas salas de visitas junto à cidade, a cachoeira Ronco d'Água. Lá, colocamos as prosas em dia.








Ele me detalhou o projeto "Livro sem Fronteiras" (http://fernandomoncao.blogspot.com/). Genial: uma biblioteca aberta onde adultos e crianças, sem qualquer controle, poderão pegar livros e lê-los, emprestá-los a quem por eles se interessar e espera-se... espera-se... um dia retornem à biblioteca para que outros leitores deles possam usufruir. A ideia é que os livros circulem de tal modo que o seu depositário venha a ser o conjunto de seus leitores. Eu digo AMÉM!


Ficamos no Hotel Valenciano, uma não muito bem conservada construção de 1917 onde, nos tempos em que o Rio era a capital da república, se conjuravam e urdiam relações de poder. Passeamos pelos belos jardins da cidade: o "de cima" e o "de baixo". Este, maior e muito bem conservado, fica em frente à Catedral católica, margeado pela Igreja Universal do reino de Deus, ao lado do Centro Espírita de Valença, perto da Igreja Internacional da Graça de Deus (a Igreja Sobrenatural da Labareda de Fogo fica em outro bairro...).


Subimos a pé (o carro "morreu" na subida...) a Serra dos Mascates (http://www.serradosmascates.com/) com o falante (e como fala...) André. Do topo avistam-se todos os possíveis recortes de montanhas, com Valença aos pés! Mascates, pois era por aqui que passavam os ditos, vindos de Minas, e aqui descansavam para prosseguirem, no dia seguinte, em direção ao litoral. Desse "descanso", nasceu Valença.




Valença: a antiga (1914) estação de trem é agora a rodoviária, as Oficinas da Central do Brasil (1914) abrigam um supermercado, o belíssimo coreto do jardim "de baixo"...

Faltou dar um pulo a Conservatória, mergulhar no Açude da Concórdia e papear mais com os antigos e novos amigos.

Melhor assim: é bom ir com motivos para voltar...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

DE NOVO EM MORSING!

De novo em Morsing. Um calor de rachar. Mesmo assim, dou uma volta pelo vilarejo. Os maiores edifícios são os da Igreja Metodista, da Assembleia de Deus e da Igreja Católica. Uma dezena de botequins e... nenhuma farmácia. Deste modo, o vilarejo destoa dos dizeres de William K. Campbell em seu livro (creio que ainda não traduzido para o português) THE DARK FACE OF LATIN AMERICA: "... os centros urbanos brasileiros, independente da quantidade de habitantes, estão invariavelmente entupidos de igrejas, botequins e farmácias".

Morsing: o picapau comendo banana, o surpreendente Dão Meia Encosta, os morcegos entocados na laje com as cabeças de fora, a alegria da Rô mexendo na terra, a briga das formigas com as abelhas no tronco da goiabeira, o doce de goiaba, a enxurrada do final de tarde, o tempo parado. E o silêncio que, como se sabe, é uma mostra de que o tempo parou.


Morsing, o trem continua a passar, a apitar, mas não para.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

ILHA DE PAQUETÁ

Outra ilha...

Pedaço do Rio antigo, no casario, nas luminárias das ruas, nos espaços amplos e, principalmente, no ritmo pausado das gentes.

Apenas cinco veículos a motor. Nas duas horas e meia que circulei pela ilha de bicicleta, entrando em todas as ruas, não deparei com nenhum. Por isso meu espanto com os dizeres de uma placa metálica afixada em uma rocha numa das curvas das empoeiradas ruas: " ..., amigo e amante de Paquetá, aqui faleceu vitimado por um trator".

Aqui, Madame Curie (aquela mesma que ganhou dois Prémios Nobel) chegou de hidroavião para passar uns dias. Também Dom João VI aqui aportou. O enferrujado canhão usado para saudar sua chegada lá está exposto.

Na Praia dos Tamoios, um pedaço de África: um majestoso embondeiro! Conta a lenda que um escravo moçambicano, pressentindo que o arrancavam de seu chão natal para sempre, trouxe a semente e aqui a plantou, para que um dia seus descendentes pudessem, seguindo a tradição, ser enterrados à sua sombra. (é o que conta a lenda, não sei se é verdade, tanto mais que fui eu próprio que a inventei). Numa placa presa ao tronco da árvore, pode-se ler:
"Sorte por longo prazo...
A quem me beija e respeita.
Mas sete anos de atraso...
A cada maldade a mim feita."


Pelo sim e pelo não, beijei-lhe o tronco.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

MOÇAMBIQUE

Só hoje consegui alinhavar alguns pensamentos que cercam uma viagem que fiz a Moçambique, há tempos atrás. Aqui vão eles, transformados em 3 pequenos textos:

SENTIDO INVERSO (Brasil - Moçambique)

Trinta anos depois de ter atravessado o Atlântico Sul, refaço a rota, no sentido inverso. Já no ar, descubro o que suspeitava: não estou viajando para o meu país, estou deixando-o. Rearranjo os pensamentos e desfaço as malas arrumadas há tempos, em becos do meu peito. Depois, troco as emoções de lugar e refaço as bagagens, com novo olhar.
Estou indo fazer turismo, nas gavetas empoeiradas de minha própria memória.

SALA DE ESPERA

Maputo, Moçambique. São tantos os buracos nas ruas, que um dito local afirma que aqui, bêbado, é quem dirige em linha reta. Estaciono o carro para bater uma foto, e logo dois ou três persuasivos vendedores ambulantes me assediam. Compro bananas, que são vendidas a peso. Indeciso quanto ao número delas que devo colocar no prato para perfazer um quilo, indago o vendedor. A resposta não poderia ser mais honesta:
- Ah... isso depende.
Ante meu olhar admirado, o vendedor prossegue:
- Depende da balança, patrão.
A venda ambulante é a única alternativa para o desemprego que grassa por estas bandas. Nas calçadas, sozinhos ou em grupo, negros em atitude de espera, braços cruzados. Nos mercados, sozinhos ou em grupo, negros conversam entre si, ou olham, mudos, as pontas desgastadas dos sapatos. Na marginal, sozinhos ou em grupo, negros fitam a linha do horizonte, esperando.
Maputo é hoje a maior sala de espera do planeta.



O ESPINHO DA MICAIA*
Praia do Tofo (Moçambique). Acordo com o nascer do sol e vou para a praia. Caminho ao longo da indefinida linha divisória entre o mar e a areia. Colho conchas e revejo as temíveis garrafas azuis, pequenos cnidários urticantes. Recordo as rochas que deixei há trinta anos, as dunas onde acampei e as tranparentes águas do Índico. Subo a uma duna. Lá do alto alcanço com o olhar toda a baía, a praia até perder de vista. Penso que ela é igual a algumas da minha terra. Porém, no instante em que assim penso, no preciso momento em que outra terra que não Moçambique ocupa dentro de mim, a primazia de ser a minha terra, piso, inadvertidamente num galho de micaia, que fura meu pé, fazendo-o sangrar. Dobro-me, retiro o espinho com cuidado e olho em volta. Esfrego o pé para aliviar a dor e penso se a "agressão" da micaia terá sido uma manifestação de desagrado, de desapontamento em relação ao meu pensamento, para com o solo que me viu crescer.
*Micaia - árvore da família das leguminosas, espinhosa, com folhagem miúda e rara (do "ronga" n' kaia)