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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ALCÁÇOVAS
Alcáçovas e não Alcáçova (do árabe al-qasba = fortaleza com residência soberana no interior) pois acredita-se que aqui existiram duas fortalezas.
O coreto do Jardim Público
No Jardim Público, junto ao coreto, em tempos recuados acontecia a Feira da Conversa. Da “conversa” pois apesar dos cestos do Algarve, da ourivesaria de Gondomar e outras joias vindas de vários lugares de Portugal, os frequentadores, oriundos das localidades em redor, aproveitavam o ensejo para por a conversa em dia… para desespero dos feirantes que nada vendiam. Daí o nome: Feira da Conversa.
Nesse mesmo jardim já teve também lugar a Feira do Chocalho. O chocalho, um símbolo da vila. Aliás, garantem os pastores, os chocalhos pendurados aos pescoços das animálias, aumentam a produção de leite.
Embrechados; Horto do Paço dos Henriques
No sec. XIX existiam duas bandas filarmónicas: a Banda dos Pés Frescos – formada por elementos de baixo poder aquisitivo – e a Banda dos Nalgueiros – mais abastados, e não só de nalgas… Ambas faziam arruadas e sempre que se encontravam era briga certa. Mas um dia fizeram as pazes: juntaram-se e criaram a Sociedade União Alcaçovense.
Aviso, junto à lavandaria pública
Os docinhos da Mostra de Doçaria de Alcáçovas (8 de dezembro)
O almocinho, pós caminhada pela vila (Paço Real)
Na Igreja Matriz São Salvador, chamam-me a atenção quatro leões em madeira que foram trazidos da Índia. Na verdade, dessas paragens vieram oito dessas estatuetas. As outras quatro estão no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Alcáçovas, uma vila com história, dizem os seus habitantes.

Uma vila cheia de histórias, penso eu. 




terça-feira, 6 de agosto de 2013

CARTAS DE ANA E PEDRO (primeiras 8 de 17 cartas)

Ana e Pedro separam-se por um período inicialmente previsto para ser curto. Enquanto Ana viaja por diversos lugares, remetendo-lhe breves relatos de suas leituras de mundo, Pedro permanece no Rio de Janeiro.
   Cartas de Ana e Pedro é parte da correspondência que eles trocaram durante esse tempo.


CARTAS DE ANA E PEDRO

1.   Entre Rio e Belo Horizonte, julho de 2004
     Pedro querido:
     Há poucas horas tentava descortinar imagens em teu rosto, para mais tarde as folhear no álbum de retratos de meu peito. Agora, meu olhar se espraia pelas montanhas que a cada curva se desdobram e se oferecem nuas. E penso em minhas dobras (tão pouco nuas para ti) que escondo à tua leitura e, mais do que isso, nos motivos porque as escondo de mim mesma.
     E vi uma árvore que falava, um homem imóvel como uma rocha, e uma pedra cujas raízes entravam tão fundo na terra que me escorreram lágrimas pelo rosto.
     Pela janela do ônibus tento uma foto mas meu olhar possui contornos que a incompetente objetiva não alcança, e me frustro.
     Saudades de tuas mãos acordando meu corpo.
                                          Ana
PS: Não esquece minhas plantas!


2.   Rio, julho de 2004
     Querida Ana,
     Grafo para ti, palavras que no papel se me aparentam gastas. Inconformado, torço-as, troco-as, risco-as. Deformadas, elas mutilam meus sentimentos. Jogo o papel fora e encaro nova folha, em branco. Tão branca e tão cheia de porções de mim, e de outros, e de outros, e de outros... (uma folha de papel só está em branco se não se olha para ela, concluo).
     Por que não consigo reter, ainda que por um instante, minha saudade numa simples folha?
     Provisoriamente desisto e traço ao acaso riscos no papel, deixando que meu olhar passeie vidrado na ponta da caneta, enquanto desejos, domesticados pelos teus seios, me tomam de assalto.
     Mais tarde na noite, meus pensamentos se aninham nas dobras mornas de teu corpo: o escuro torna tudo possível.
     Meus dias sem ti parecem atulhados de tempo.
                                          Pedro
PS: Tenho regado as plantas. Apressadamente, às vezes. Será que elas vão se ressentir?


3.   Chapada dos Guimarães, Mato Grosso, agosto de 2004
      Pedro,
     Chapada, centro geodésico do continente. Uns dizem que a população do planeta, no terceiro milênio, só aqui sobreviverá. Outros, vem em procissões místicas e se quedam meditando. Outros ainda, afiançam que o denso nevoeiro que por vezes aqui baixa, são caminhos do céu na terra. Os mais simples, no entanto, chegam e caem de joelhos, orando: afirmam, não se sabe se ainda desta vez feito homem, descerá neste lugar um novo Deus.
     Sinto um vazio no estômago. Não sei se o meu coração ri ou chora. Mergulho na cachoeira e desfaço-me em gotas de água prateada.
     Tua carta invadiu meu dia, desacertou meu coração, me acendeu relâmpagos no baixo ventre que a água fria não extinguiu. Vontade de largar tudo, correr para ti e me incendiar em teus braços.
     Mil beijos.
                                          Ana


4.   Rio, agosto de 2004
     Ana querida,
     A saudade de ti me apareceu na forma de um outono duvidoso: um nublado refúgio de lembranças de ti, um reflexo menos nítido de meu olhar no espelho ao acordar, uma impressão  vaga de que meus desejos se alimentam de negativas, uma sensação doída de que a vida nem sempre é um abraço...
     Errei horas pela casa até, feito autômato, me sentar frente a esta folha e começar a te escrever.
     Agora, cercado de palavras, aprisionado por frases que eu mesmo esculpi, tento identificar o que de ti floresce em mim. Porém, a cada palavra que escrevo aumenta a vontade de sumir por uma brecha do texto e encontrar teus lábios, teus olhos brilhantes e teus cabelos molhados pelas águas da Chapada.
     Giro a caneta pelo papel tentando me desenhar, mas não me encontro. Ansioso, olho o relógio: a garganta de minha ampulheta é mais larga que a da ampulheta do mundo. Preciso começar.
     Beijos apressados.                                                                 
Pedro

5.   Rio Madeira (Amazonas), a bordo do B/M Orlandina, setembro de 2004
     Pedro muito querido,
     Da floresta vem um cheiro doce que me excita, e o verde à minha volta, de tão verde, faz-me crer que tudo vai ser sempre assim. Na margem do rio, uma criança caminha indiferente a tudo o que me encanta. Nem o boto na sua fugaz aparição lhe altera o andar. Mais adiante, parada em Humaitá. Pela semi destruída escada de acesso, e pisando o lodo que o rio, agora em tempo de seca, deixou à mostra, embarcam três enormes sacos de biscoitos, catorze galinhas, dois motores, oito mestiços com quatro crianças sendo uma de colo, quatro latões de margarina, dois sacos de farinha, um homem com a camisa limpa, calçado e com uma maleta preta na mão direita, um cachorro que me pareceu cego e um vendedor de pamonha (que voltou a sair).
     E a viagem continua...
     Sinto que cada caminho que percorro redimensiona todo o meu ser. E me pergunto: que outras possibilidades, que outras vidas, outros mundos haveria, e quem seria eu, se em vez de seguir o capricho, a intuição que me fez voltar para um lado, eu tivesse me voltado para outro?
     Sei, não tens, não temos respostas. Mas, divisar tais possibilidades, me faz sentir multiplicada.
     Desejos de ancorar meu corpo ao teu, e me deixar adormecer.
     Beijos.
                                          Ana


6.   Rio, setembro de 2004
     Ana,
     Quisera eu me multiplicar, percorrer todos os caminhos possíveis, errar e acertar tantas vezes quantas as necessárias, descobrir todas as minhas forças. No entanto, e sempre com uma ânsia impotente de inverter os sentidos, me pego muitas vezes fugindo de determinadas sendas em favor de outras, excessivamente sensatas. Atalhos que encurtam a vida, eu sei.
     Te vejo nas ruas, esquinas, acenos fugazes, não sei mais se tu mesma ou uma outra que inventei.
     Recorto o horizonte com o olhar. Há dias em que, dentro de mim, te transformas em ausência.
     Anseio pela tua volta.
     Um beijo.                                 
     Pedro
PS: Sinto que nossa separação reedita em mim dores de separações tão antigas...


7.   Qosqo, Peru, outubro de 2004
     Querido Pedro,
     Nem quinhentos anos de sol e vento, nem dois terremotos, nem a voracidade de Pizarro conseguiram apagar os traços da cultura Inca.
     Na magnífica catedral com motivos barrocos (lembranças de Castela sobre ruínas Incas), no quadro da última ceia, Cristo tem à sua disposição, sobre a mesa, as mais variadas frutas tropicais. Cá fora, crianças estendem as mãos enquanto as mães apregoam bugigangas.
     Pátios sevilhanos e varandas talhadas em madeira. As praças parecem ser insuficientes para tantos “libertadores”.
     Não sei se são as cores dos aguaios ou o ar rarefeito dos Andes, mas algo me faz sentir tonta.
     Daqui, seguirei para Vancouver. Cada pedaço de mundo que minha leitura alcança me impressiona diferente, e vai-se encaixando num gigantesco quebra-cabeça onde cada peça só está onde está e na forma em que se encontra, no momento em que a recorto. Sei que nunca vou colocar a última peça, pois o quebra-cabeça cresce à medida que eu cresço, e nos confundimos. No entanto, sinto que a cada dia aumentam as minhas possibilidades de, nele, eu me reconhecer.
     Saudades do teu cheiro e de me dissolver em teus abraços.
                                          Ana


8.   Rio, outubro de 2004   
     Ana,
     Minha vontade é de te abraçar, te agarrar, te aguardar (me agradando), te aguardar o máximo, um máximo às vezes tão mínimo.
     No entanto, tudo o que neste momento consigo, é tentar verter em palavras de papel este mistério que trago comigo e que nem bem sei o que é... que eu nem bem sei quem sou...
     Palavras que morrem à medida que são geradas. Silenciosas se interrogadas, elas não se explicam, não dizem mais nada do que elas mesmas. São só palavras de papel. Mortas! Imutáveis, apenas lhes resta que, aliadas ao tempo e ao espaço, o mutante leitor as ressuscite, diferentes, para que, diferente, o autor do primevo gesto (existirá esse gesto?), renasça.
     Creio ser esse o único consolo das palavras escritas.
     Me recomponho ao descobrir teus olhos doces entre as palavras e nas entrelinhas da tua carta.
     No pó da vidraça escrevo o teu nome e, através de ti, fico-me lendo o mundo, lá fora, tomar tuas formas.
Pedro
PS: As pétalas das rosas, caem. Alguém lhes avisa das estações?

CARTAS DE ANA E PEDRO (últimas 9 de 17 cartas)

    9.   Cathedral Groove (reserva florestal de pinheiros gigantes), Vancouver, novembro de 2004
     Meu Pedro:
     Sinto também, no que faço, a necessidade de que no outro, meu gesto continue... assim como tuas palavras de papel se prolongam dentro de mim.
     Na entrada da reserva florestal, um letreiro, em placa de alumínio coberta a plástico transparente, dizia: “Você está em frente aos seres vivos mais idosos da Terra - mais de 800 anos - Olhe bem para eles, antes que morram”. Manuscrito num pedaço de cartão, que alguém colocou entre o alumínio e o plástico, estava escrito: “Velhas árvores não morrem nunca. Elas simplesmente voltam à terra, para alimentar outras que nascem”.
     Segue a foto do pinheiro mais belo, fatia do eterno aprisionada em papel.
     Beijos.
                                          Ana
PS: Quanto às rosas, me disseram um dia, elas já nascem com as estações dentro delas.


10.  Rio de Janeiro, novembro de 2004
     Ana querida:
     A foto que mandaste, revolveu a manhã inteira dentro de mim: como em um tronco podemos ler a história do mundo desde o primeiro sopro... e como somos cegos em relação a essa possibilidade.
     Fecho meus olhos e momentos depois constato que sempre, em cada momento, somos cegos em relação a tantas coisas... Descubro também que quem eu vejo (ainda de olhos fechados) não sou mais eu, porque o me ver me faz ser outro, ou eu mesmo, justo por não ser mais eu! Não é verdade que apenas olhamos um rio quando em vez de água vemos o seu fluir?
     Mais tarde saio, e encaro a chuva cujas gotas trazem impressas lembranças de ti e, ao me molharem, me desembrulham em desejos de te ter. Caminho, e meus sonhos desenham outros passos adiante dos meus passos.
     Teu riso aparece com tal intensidade no meu que, por vezes, não sei se sou eu mesmo quem ri.
     Um beijo molhado.                                        
Pedro
    PS: Me assaltou hoje o pensamento de que talvez a escrita, para mim, seja apenas um vício, ou um desejo estéril de me sobreviver.


11.  Armona (sul de Portugal), dezembro de 2004
     Pedro,
     Mais do que me sobreviver, me pergunto se tudo o que faço existe porque eu existo, ou se apenas eu existo porque o faço.
     Sentada na orla da minúscula ilha, olho os reflexos do sol nascente no mar, e por um instante sou tomada de loucura (ou profunda lucidez): lentamente levanto-me, dispo-me e caminho nua pelos reflexos, ao encontro do sol.
     Também em mim, a chuva, vez por outra, costura anseios a lembranças de ti, e faz meus passos se desacertarem.
     Voo depois de amanhã para a Índia (ainda, tentando seguir os reflexos do sol nascente).    
     Um beijo agarrado em teu corpo.
                                          Ana
PS: Notícia importante sobre pássaros: nas torres da igreja de Alcácer do Sal, as cegonhas, indiferentes à zoeira dos sinos, dão o calor dos seus corpos às imberbes crias.


12.  Rio, janeiro de 2005
     Ana muito querida,
     À ansiedade de querer saber quem sou, onde estou, porque as aves voam e os peixes nadam, a essa ansiedade se somou este espaço vago que tomou conta de mim, que é como um caminhar em direção a nada: minhas mãos carecem de teus dedos, meus ouvidos de tua voz, meu peito de teu peito, meus lábios de desenhos de teus lábios.
     E me sinto cansado. Cansado de me ler, de me escrever. Num momento, sou moribundo de mim mesmo, para logo a seguir, minha ansiedade alertar todo o meu ser: como viver sem a tênue exaltação que é o encontro com um pedaço encoberto de mim?
     Olho em volta: silêncio. No borbulhar dos acasos, meus sentidos correm em busca da pérola azul, para a dissolver em meu sangue.
     Tento imaginar como será trocar olhares com a Ana que retornará, mas só me vem imagens da que partiu.
     À noite, procuro derramar sono sobre os meus pensamentos.
     Beijos, do tamanho de tua boca.
Pedro
PS: Não sonho mais contigo. Meus sonhos cansaram-se de não serem reais.


13.  Goa (Índia), fevereiro de 2005
     Querido Pedro,
     De uma parte incerta de mim me vem um estremecimento que me toma de assalto por inteira. Como se tuas frases injetassem em minhas entranhas a pérola que persegues.
     Te escrevo de uma praça em Velha Goa. Um gentil indiano tenta me fazer perceber o hinduísmo: “É tudo, de zero a infinito, ao mesmo tempo em todas as direções, entende?”, me diz ele, com voz pausada. Eu faço que sim, com a cabeça, e olho em volta: à nossa frente, um templo hindu, à esquerda, a Basílica de Bom Jesus (onde estão os restos mortais de São Francisco Xavier), à direita, a Sé Catedral dos Dominicanos e mais além as ruínas de uma mesquita muçulmana. Delicado, ele pergunta-me qual a minha religião e eu, receando ferir a sua suscetibilidade, finjo não compreender. Porém, ele insiste, e acabo respondendo que não tenho nenhuma. Estranhamente, ele sorri e, sempre gentil, sentencia: “Ah, então é como eu. Nenhuma, nada, é o mesmo que tudo, ao mesmo tempo em todas as direções, de zero a infinito”.
     Feliz por te sentir vivo, ainda que cansado, sonhador, porém acordado, pleno de desejos.
     Mando-te a foto de um menino nu: um de tantos que a imaginação gera em mim e a realidade aborta. Sonhos adiados que me afadigam.
     Beijos mil.
                                          Ana


14.  Rio, março de 2005
     Querida Ana:
     Teu menino nu, olhar teu ampliado, me fez nascer desejos de renascer em ti. Olho-a como se fosse um outro eu brotado de teu eu. Fecho meus braços e aperto-a em meu peito. Queria-te também, abraçar por inteiro, ter-te, proteger-te de... de não sei o quê.
     Despovoado de teu toque, descubro como é difícil não te ter, dividindo o dia. Me vejo emendando gestos, enquanto meus passos aprendem as distâncias a sós. Com sobressalto constato que a saudade alagou minhas horas e me pergunto sobre os ares que respiras, os fogos que te consomem e as águas em que os resfrias.
     Minhas palavras em voz alta se fundem ao silêncio e a teus movimentos deixados no espaço, e desabam sobre mim.
     Meu coração está cheio de retratos teus.
     Os beijos que trocamos começam a cicatrizar em meus lábios. Como é mesmo te abraçar?                                   
Pedro
PS: Não te pergunto quando voltas. Receio conhecer a resposta.


15.  Pahar Ganj, Nova Delhi, maio de 2005
     Pedro querido,
     Passeio devagar entre saris, tapetes, panos coloridos e o vozerio dos vendedores tentando aliciar-me num inglês incompreensível, misturados com buzinas estridentes de riquixás e bicicletas, acordes de cítara, vacas e hippies ressuscitados dos anos sessenta. Um velho esquálido que se confunde com o chão onde parece estar de cócoras há mais de mil anos, estende-me a mão aberta onde deposito uma rupia. Evitando as poças de esgoto, os sorrisos dos vendedores e as ofertas para tomar chá, tento proteger-me da nuvem de poeira que tudo parece dominar e dos 44º de temperatura.
     Inebriada com o que me rodeia, penso que de algum modo, um pedaço meu sempre esteve aqui. Me vem então um desejo imenso de continuar me descobrindo. Por isso... (vasculhei meu peito o dia todo, buscando uma maneira mais suave de te dizer, mas não encontrei) não sei quando volto.
     Te amo.
                                          Ana
PS: O que é voltar?




16.  Rio, maio de 2005
     Ana,
     Tudo imprimia em mim a sensação de que não voltarias. Só eu mesmo tentava resistir a essa idéia. Agora não sei como abrandar o sobressalto que se apossou de meu peito e atravessar a aridez que permeia minhas horas.
     Tento me reconfortar com banalidades, como a de que estamos sempre sós. Estamos sempre sós. Sempre sós. Sós.
     Tento, mas não consigo.
     De noite, revolves os meus sonhos, inquietando o meu dormir. Depois, manhã cedo, quando tudo dorme, me fazes continuar sonhando, embora acordado.
     Apenas porque a vida é curta, um pouco de mim será eternamente teu.
     Não sei mais como lidar com meus desejos de ti          
Pedro
     PS: Guardei as pétalas das rosas: elas insistem em conservar o teu cheiro.

(...)

17. Rio, março de 2006
     Ana querida,
     Cerca de dez meses depois de minha última carta, volto a sentar-me para te escrever.
     Neste tempo todo, descobri que a pérola azul que procurava, estava já dissolvida em meu sangue e que, me desenhar em palavras de papel, na verdade é garimpar pérolas multicoloridas em meus fluídos.
     Continuo sonhando contigo. Sinto no entanto que meus sonhos percorrem contornos de um dos universos possíveis.
     No álbum de meu peito, teus retratos adquiriram tonalidades claras e teu nome escrito no pó da vidraça é agora o recorte de algo tão infinito e indecifrável quanto o que ele representa.
     Continuo também não sabendo muito bem quem sou e por qual misterioso milagre me encontro aqui. Tampouco para onde vou, onde vamos...
     Teu riso deixou marcas indeléveis em meu caminhar e, se existisse a palavra obrigado, eu te diria obrigado, por isso. Te amo mais porque me amo mais. Acho que precisei me perder em ti, para me encontrar em mim.
     Um beijo para ti, sejas tu quem fores.                                   
Pedro
PS: No vaso grande da área, onde pensei só existirem pequenos galhos secos, um botão de rosa ameaça florir.



terça-feira, 9 de abril de 2013

FEIRA DA LADRA


Lisboa, sábado, Feira da Ladra






Pedaços de Portugal encaixotados
Sábado, dia de feira. Da Ladra. Documentos remontam-na ao século XII, reinado de Dom Afonso II.
Adicionar legenda
Livros a um euro...
Caminho ao acaso por entre as mais variadas quinquilharias. Azulejos (pedaços de Portugal encaixotados), números de portas  (o que fará o carteiro sem eles?), livros a um euro, o artesanato africano (feito em Alcabideche) e absolutamente TUDO o que se possa imaginar, das mais variadas épocas e procedências.
Os novos profetas
Bem à entrada, constato que algo permanece intacto do século XII: os profetas! Anunciando os castigos vindouros e as graças nem sempre fáceis de alcançar, lá estava um…

sábado, 9 de março de 2013

MACEIÓ


Maceió, Alagoas, Brasil

No check-in do voo que me levará a Maceió, apresento, não sem um certo constrangimento, um pedaço de papel, onde havia escrito à mão, o número de meu e-ticket. A moça olha o papel, vira-o de um lado e do outro, me olha, volta a olhar o papel e… aceita meu rabisco.
Já em Maceió, no aeroporto Zumbi dos Palmares penso, olhando as modernas instalações, o que Zumbi acharia de tudo aquilo. Dispenso os insistentes convites das empresas de táxi, e pego um ônibus que acabava de entrar no meu campo de visão: Aeroporto-Ponta Verde, justo para onde pretendo ir. Assim que entro, descubro que não só entrei num ônibus, mas também no século passado: a cobradora entrega-me um bilhete de papel numerado (uma numeração sequencial, onde meu número é único), com a data e hora do trajeto manuscritos por ela mesma, à minha frente.
Saio do ônibius exatamente na porta do hotel que me haviam reservado e entro de novo no século atual: WiFi, chave eletrônica do apartamento, atendimento computadorizado.
Maceió, da brisa constante à beira mar, das tapiocas e da água de coco insuperável. Do calçadão orlado de coqueiros e amendoeiras, e também acácias iguais às daquela cidade africana voltada para o Índico. Aqui os veículos param ANTES da faixa de pedestres! A primeira vez que um ônibus assim procedeu, não arrisquei atravessar: pensei que tivesse enguiçado e que a qualquer momento fosse avançar.
Maceió do Motel “Ceqsab”Fico imaginando a cara do espertalhão que, num primeiro encontro, pergunta à tímida moça: “Onde você quer ir?”
Como acontece em todas as cidades, aqui há várias Maceiós. Aquela onde me hospedo, desde que se fique voltado para o mar, portanto, de costas para os espigões que que parecem aumentar em número da noite para o dia, é belíssima. 

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A ESTÂNCIA DE VERÃO DO PAPAI NOEL



Penedo, estado do Rio de Janeiro, Brasil

Cansado do frio constante, Papai Noel fundou nos trópicos uma estância de verão. Em Penedo, no estado do Rio. Verdade? Não, é uma brincadeira, claro.
Penedo, foi fundada por Toivo Uuskallio, um finlandês vegetariano que, querendo levar uma vida natural, plantando e colhendo todo o ano, coisa impossível na Finlândia devido ao rigoroso inverno, se encantou pela região e, em 1929, comprou a Fazenda Penedo.
Hoje o local é um aglomerado de pousadas e hoteis. São tantos que toda a população do lugar não chegaria para os ocupar a todos!
Cachoeiras, belas trilhas, muito chocolate, saunas ― a palavra “sauna” vem do finlandês e significa banho ― e, na Pequena Finlândia, num conjunto comercial que reproduz uma pequena cidade finlandêsa, situa-se a Casa do Papai Noel!
Na Casa do Papai Noel, qualquer um pode conversar com o dito, segundo apregoam, o autêntico ― sem as renas ― mas pareceu-me que nem tudo por lá está de acordo com o esperado: escutei um garoto saindo da casa, e comentando com a mãe:
― Mãe, ele não falou “Oh! Oh! Oh!” nem uma “vezinha”?!
O Papai Noel dos trópicos, dito o autêntido, decepcionou.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

LER x ESCREVER


A meu ver, Ler e Escrever são duas atividades irmãs, relacionadas.

Quando escrevo me leio, me detenho em mim. Passo para palavras de papel o que me vai dentro.
Quando leio, me escrevo na matriz, que é o livro. Crio uma história com as palavras que o autor grafou e que agora me empresta.


Um texto é um pretexto para que o leitor se coloque

Acho que o livro é como uma casa onde posso arrumar meus móveis interiores.

Não me lembro onde li a frase que se segue, não recordo o autor, mas me identifico plenamente com ela:


Nos livros e nas nuvens, cada um lê/vê apenas o que tem dentro de si.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Escrevo...


Escrevo, pois as palavras, pronunciadas, atropelam-me ideias, incompletam-nas, deturpam-nas, deturpam-me. Desenhadas no papel elas permanecem mais tempo que o tempo, desdobram-se, germinam sentidos, passam além de mim, multiplicam-me.
Palavras, leva-as o tempo, poderia ser o dito. Mergulhadas no rio-tempo, são jogadas às margens e apanhadas por quem delas se embebedará. Alguém que, apenas porque o tempo-rio corre, nem sequer é mais quem foi…
As palavras, pronunciadas, mudam, emudecem, trocam-se, enveredam caminhos outros…
Por isso, escrevo.


AS SETE VIDAS DO BAIXINHO

BAIXINHO  e eu

Ilha Grande, praia da Biquinha
Na praia da Biquinha, converso com Baixinho, ou melhor… ouço o que ele conta.
Sessenta e três anos, marinheiro, pescador, artesão, marceneiro, boletim meteorológico certeiro, construtor de canoas, mateiro, cozinheiro, profundo conhecedor das plantas e animais da ilha, etc, etc… tem sete vidas.
─ As coisas só acontecem quando tem que acontecer; a gente só vai quando tem que ir ─ sentencia.
E ele terá sete vidas mesmo.
Certa vez foi mordido por um morcego. Dormia em uma cabana de pau a pique e não se deu conta. A mordida deve ter atingido um vaso sanguíneo no dedo do pé que sangrou a ponto de encharcar o lençol, o chão e escorrer pelas tábuas. Algo o acordou, passou a mão pela perna. Sentiu-se desfalecer. Andou uma semana se enroscando pelos cantos. Anemia.
De outra feita, cansado de olhar os sanhaços devorando o cacho de bananas da sua bananeira preferida, resolveu dar um jeito. Banquinho embaixo da árvore, esticou os braços e cortou o cacho. Mas... uma aranha caranguejeira entrou-lhe pela manga da camiseta. Desmaiou. Passou três dias vomitando. Sobreviveu.
Jararaca
Outra vez sonhou que pegava uma fruta de conde de tamanho avantajado, de cor laranja. Premonição certeira: no dia seguinte, querendo pegar uma manga, vasculhou o chão procurando um galho. Porém, um passo em falso fê-lo pisar numa cobra: jararaca! Segundos volvidos, começaram as alucinações. Tudo em volta dele era de cor laranja. Barcos, árvores, pessoas, tudo. Tudo laranja. Um barco levou-o às pressas a Angra dos Reis, o soro antiofídico salvou-o. Não sem sequelas.
Foi a única vez em sua vida que precisou de um médico.
Ilha Grande, baía de Angra dos Reis


Melhor, foi a única vez que, em uma de suas sete vidas, precisou de um médico.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

PARA LÁ DE MARRAKECH

Viajar para lá de Marrakech, num trem da ONCF é quase tão ruim quanto viajar num trem da Central.
Os trilhos sulcam a terra árida a perder de vista. Terrenos cercados por cactos e pedras. Nas redondezas das cidadelas, o solo parece semeado de sacos a garrafas de plástico.
Súbito, o trem interrompe a marcha. Burburinho, cochichos. De um dos vagões saem dois policiais arrastando um pobre coitado pelos colarinhos. Onde irão no meio deste deserto que parece não ter fim?
Já em Casablanca, à cata dos locais por onde teriam andado Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, descubro que o filme foi integralmente rodado em Hollywood.
Peguei o trem de volta.

domingo, 21 de outubro de 2012

DJEMAA EL FNA


Dizem ser a maior praça de todo o continente africano. Djemaa el Fna em Marrakech, Património Imaterial da Humanidade, será seguramente o lugar mais animado do planeta. A tradução de Djemaa el Fna, ou uma das traduções, é “Assembleia dos Mortos” pois aqui, antigamente, criminosos eram executados e suas cabeças expostas, como exemplo. Mas em lugar algum do mundo se poderia encontrar mais vida: acrobatas, vendedores ambulantes de água, dançarinos, músicos, malabaristas, barracas de comida, contadores de histórias, curandeiros, saltimbancos, faquires, encantadores de serpentes, macacos amestrados, engolidores de espadas, dentistas, vendedores de plantas medicinais, chás para todos os males, doces típicos, cartomantes, vendedores de peles, de pedras, de ovos de avestruz, unguentos, sabão em pasta, especiarias, chapéus de palha, tatuagens em hena, tâmaras, suco de laranja, brinquedos…

Tudo acontece ao mesmo tempo, com sons e aromas exuberantes…
É só escolher o espetáculo e a sessão.

DJEMAAA EL FNA. A praça, de manhã, quase vazia. O património são as pessoas que por lá circulam com suas artes



quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Gurupá e os Beneditos


Dou-me conta que a crônica que se segue foi inserida na tese de mestrado de Maria Aparecida Ribeiro, 
foi “vendida”, num site de compra e venda de textos, 
publicada no jornal “A Ponte” da Catembe (Moçambique), 
publicada no jornal “O ECO” da Ilha Grande (Rio de Janeiro), 
publicada na revista on line “Canteiro de Obras”, 
plagiada num livreto de crônicas que comprei em Fortaleza há algum tempo, 
publicada no livro “Álbum de Retratos”, 
mas… não ainda no meu modesto Blog. Aqui vai então:

Gurupá, Baixo Amazonas. Aqui, todas as pessoas, ou quase, se chamam Benedito. Para que se possa saber de quem se fala ou a quem se designa, as pessoas são referenciadas pela profissão (Benedito padeiro), pelo lugar onde moram (Benedito da caixa d’água), ou até por alguma particularidade física (Benedito do braço comprido).
       Seu Benedito, o velho, fala-me do forte de Santo Antônio (que todos chamam de forte de São Benedito), da igreja que, para não me tornar repetitivo, não mencionarei em louvor de quem foi erigida, e de mil e uma outras coisas que meus ouvidos não têm capacidade plena de absorver, tudo com a voz pausada de quem tem todo o tempo do mundo para contar histórias.
       Caminho ao acaso pelas poucas ruas do lugar, ouço os Beneditos se cumprimentando de um lado para o outro da calçada e faço um lanche na lanchonete São Benedito.
       Às dezoito horas, os alto-falantes da cidade tocam a ave-maria e eu regresso ao cais, emoldurado pelo dourado vermelho do sol poente. No caminho, detenho-me a observar o incipiente comércio de fim de tarde à beira-rio e a tranqüilidade absoluta que transpira das coisas, das árvores, do rio e dos olhos calmos da gente local. E penso que um dia volto! Volto, mudo o meu nome para Benedito e me dissolvo na paz do lugar, escrevendo crônicas, para depois com elas fazer aviõezinhos de papel e atirá-los do alto em direção ao leito do rio. 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

O CAVALEIRO ILUMINADO


Ayamonte, pequeno burgo fronteiriço a Portugal, mais precisamente a Castro Marim. Separa-os ou, como veremos, une-os o Rio Guadiana. Melhor, algo sob o rio. Há quem garanta que existe um túnel debaixo do rio, unindo as vilas.
― Escutam-se ruídos vindos de lá de baixo, sons de vozes, cascos de cavalos… tem um túnel lá, sim.
A idosa senhora fica abanando a cabeça, afirmativamente.
Banco de jardim em Ayamonte (azulejos feitos em Triana)
Sentei-me ao lado dela, num belíssimo banco coberto de azulejos, na praça principal da vila.
― Ayamonte é o lugar mais misterioso de toda a Espanha ― garante, sem parar de abanar a cabeça; e, após uma pausa ―um cavaleiro das Idades Médias passa pelas ruas da vila nas noites de lua nova. Todo iluminado… Assim…
A senhora abre os braços em direção ao sol.
Aya, do ibérico antigo, significa monte. Os romanos, quando aqui chegaram, traduziram a palavra Aya: Mon-tij, que significa, também, monte.
Talvez o nome mais apropriado para o local seja Montemonte
― Mas esse… esse cavaleiro, quem já o viu?
―Ah… muita gente, mas só pelas costas. Os olhos dele furam o coração das pessoas...
      ― Já furaram alguém?
― Já! ― exclama ela ― o último foi no ano passado. Um vizinho meu, por aposta, disse que olharia de frente o cavaleiro e que nada lhe ia acontecer. Quando escutaram os cascos e os cachorros uivando, ele saiu à rua e olhou o cavaleiro.
A idosa senhora faz uma pausa longa, sem parar de abanar a cabeça.
― Mortinho! Caiu mortinho sem um pio sequer. Olhe, é de lá que o cavaleiro vem. Do outro lado, de Portugal. Passa por dentro do túnel e vem procurar a noiva… Ele não sabe que ela se enforcou há muitos anos…
Papeamos um pouco mais, despeço-me e dirijo-me à vizinha Isla Canela. A senhora ficou me acenando, levantando um pouco a mão direita e abanando a cabeça, afirmativamente.
Tomando anotações, em Isla Canela
Em Isla Canela uma água morna convida a um mergulho. Palmeiras ao longo da margem. Nas mansões à beira mar, boa parte delas à venda, os ricos saboreiam conquilhas, regadas a vinho.

No mar em frente, os pobres catam conquilhas.

terça-feira, 24 de julho de 2012

NO FUTURO

No futuro próximo seremos apenas cinco fotos que alguém hesita entre colocá-las no fundo de um baú ou jogá-las fora.

EU  E MEU PAI
No futuro futuro essas fotos serão seremos poeira indistinta espalhada entre a poeira.