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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

ALCÁÇOVAS
Alcáçovas e não Alcáçova (do árabe al-qasba = fortaleza com residência soberana no interior) pois acredita-se que aqui existiram duas fortalezas.
O coreto do Jardim Público
No Jardim Público, junto ao coreto, em tempos recuados acontecia a Feira da Conversa. Da “conversa” pois apesar dos cestos do Algarve, da ourivesaria de Gondomar e outras joias vindas de vários lugares de Portugal, os frequentadores, oriundos das localidades em redor, aproveitavam o ensejo para por a conversa em dia… para desespero dos feirantes que nada vendiam. Daí o nome: Feira da Conversa.
Nesse mesmo jardim já teve também lugar a Feira do Chocalho. O chocalho, um símbolo da vila. Aliás, garantem os pastores, os chocalhos pendurados aos pescoços das animálias, aumentam a produção de leite.
Embrechados; Horto do Paço dos Henriques
No sec. XIX existiam duas bandas filarmónicas: a Banda dos Pés Frescos – formada por elementos de baixo poder aquisitivo – e a Banda dos Nalgueiros – mais abastados, e não só de nalgas… Ambas faziam arruadas e sempre que se encontravam era briga certa. Mas um dia fizeram as pazes: juntaram-se e criaram a Sociedade União Alcaçovense.
Aviso, junto à lavandaria pública
Os docinhos da Mostra de Doçaria de Alcáçovas (8 de dezembro)
O almocinho, pós caminhada pela vila (Paço Real)
Na Igreja Matriz São Salvador, chamam-me a atenção quatro leões em madeira que foram trazidos da Índia. Na verdade, dessas paragens vieram oito dessas estatuetas. As outras quatro estão no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa.
Alcáçovas, uma vila com história, dizem os seus habitantes.

Uma vila cheia de histórias, penso eu. 




segunda-feira, 4 de novembro de 2013

VIII Prêmio Escriba de Contos - Piracibaba - BRASIL

Participei do VIII Prêmio Escriba de Contos, organizado pela Secretaria Municipal de Ação Cultural de Piracibaba e pela Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”.
O número de trabalhos inscritos foi de 1152, oriundos de lugares como Itália, Portugal, Moçambique, além de, é claro, do Brasil. Ganhei MENÇÃO HONROSA, e meu conto será publicado em uma Antologia que reunirá os vinte melhores.



Eis o conto selecionado:

LA VIDA ES SUEÑO
Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos. Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos. Sonhos onde me vejo sentado no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de alguns minutos. Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos. Sonhos onde me vejo sentado no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de alguns minutos. Leio La vida es sueño, no original, do dramaturgo e poeta espanhol Calderón de la Barca. No parágrafo que leio neste momento está escrito: “tudo na vida é sonho”. Estou sentado no aeroporto de Lisboa. Embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos. Sonhos onde me vejo sentado no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de alguns minutos. Leio La vida es sueño, no original, do dramaturgo e poeta espanhol Calderón de la Barca. No parágrafo que leio neste momento está escrito: “tudo na vida é sonho”. Sonho que estou no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos. Sonhos onde me vejo sentado no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de alguns minutos. Leio La vida es sueño, no original, do dramaturgo e poeta espanhol Calderón de la Barca. No parágrafo que leio neste momento está escrito: “tudo na vida é sonho”. Sonho que estou sentado no aeroporto de Lisboa. Onde embarcarei dentro de minutos para o Rio de Janeiro. Vou sozinho. Vou só com as minhas memórias. E expectativas. E sonhos... E sonhos… e sonhos…

terça-feira, 9 de abril de 2013

FEIRA DA LADRA


Lisboa, sábado, Feira da Ladra






Pedaços de Portugal encaixotados
Sábado, dia de feira. Da Ladra. Documentos remontam-na ao século XII, reinado de Dom Afonso II.
Adicionar legenda
Livros a um euro...
Caminho ao acaso por entre as mais variadas quinquilharias. Azulejos (pedaços de Portugal encaixotados), números de portas  (o que fará o carteiro sem eles?), livros a um euro, o artesanato africano (feito em Alcabideche) e absolutamente TUDO o que se possa imaginar, das mais variadas épocas e procedências.
Os novos profetas
Bem à entrada, constato que algo permanece intacto do século XII: os profetas! Anunciando os castigos vindouros e as graças nem sempre fáceis de alcançar, lá estava um…

sexta-feira, 22 de março de 2013

SÉTIMA VIRTUDE: TEMPERANÇA


Vila Viçosa, Portugal. Paço Ducal, Casa de Bragança

Visitamos mais de trinta salas e, segundo o simpático guia, não adentramos nem na quarta parte das salas do paço.
Terreiro do Paço (dos Duques de Bragança); estátua equestre de Dom João IV
Na “Sala das virtudes” lá estão representadas as sete virtudes. Porém, como o teto é octogonal, o ilustrador “inventou” uma oitava virtude, para preencher o incômodo espaço vazio que aquela porção de teto lhe incutia: “A Sabedoria”, assim lhe chamou. E desenhou uma mulher com adereços alusivos.
Uma dúzia de salas adiante, chegamos aos aposentos onde dormiam os duques. Chama-me a atenção o reduzido comprimento dos leitos. Explica o guia que nossos reais antepassados eram acometidos de uma superstição, por isso dormiam apenas encostados e não deitados nas camas. A superstição? A de que poderiam morrer se se deitassem. E… morriam mesmo! Ao se deitarem de barriga cheia, empanturrados de comezainas e banquetes, não raro morriam de indigestão.
Mais tarde, na pousada, após uma orgia de doces conventuais, coloco as almofadas em posição conveniente e durmo recostado.

sábado, 9 de março de 2013

RECEITA PARA SER UM TURISTA IMPORTANTE

Segue a receita para se ser um turista importante (que não lhe "assente a carapuça", leitor)


O turista importante pode ser homem ou mulher, ou até mesmo criança. Não importa sexo ou idade. O que faz um turista ser importante, são suas atitudes.
O turista importante não se hospeda em casa de amigos ou simples pousadas, onde o contato com residentes tangencie a informalidade. Ele fica em hotéis de luxo, com um conforto mínimo, em tudo semelhante ao de sua própria residência: tapetes felpudos no chão e amplos sofás. Nesses hotéis não é preciso conversar com ninguém local. Para que as necessidades sejam satisfeitas, basta encomendar ou ordenar o que se precisa, por telefone, sem mais problemas ou intimidades.
O turista importante exige sempre um apartamento com ar refrigerado. Nada de janelas abertas, pois nunca se sabe o que pode vir junto com o ar fresco.
O turista importante não se arrisca a provar a cerveja local ou o destilado produzido no país que visita. Para ele, o whisky a que se acostumou, é o aperitivo que o satisfaz.
O turista importante tampouco come a comida local, pois não pode passar sem um bife mal passado, o arroz no ponto e as batatas fritas bem sequinhas.
O turista importante não viaja nunca nos transportes públicos dos locais que visita, pois não há nada que chegue a um bom taxi com ar refrigerado e vidros fumé.
O turista importante não se arrisca a perder tempo assistindo a manifestações culturais locais, como a dança ou a música, a menos que sejam organizadas por alguma empresa de turismo credenciada (credenciada no país dele), e caso não haja nenhum jogo de futebol importante, a ser transmitido pela TV via satélite do seu hotel.
O turista importante sempre compra lembranças para levar para casa, muitas vezes ícones de lugares que ele não teve disposição para visitar, mas que estão disponíveis nas vitrinas, atendidas por funcionárias muito atenciosas, das lojas situadas no térreo do hotel onde ele está hospedado. Aliás uma das características de determinados turistas importantes é visitar outro país como se esse país, todo ele, fosse uma espécie de supermercado gigante. E voltam para casa descrevendo o lugar que visitaram, como se ele fosse uma sucessão de vitrinas, com utensílios e coisas à venda.
O turista importante bate fotos e filma os locais de interesse turístico. Os filmes são feitos de dentro de coletivos fretados pelo hotel ou em mirantes conhecidos, seguros, guardados, vigiados, quase tranquilos, quase selados. As fotos que o turista importante bate, são como devem ser: prédios, monumentos, praças, obeliscos e paisagens, que serão tão mais interessantes quanto mais parecidas forem as fotos, com os postais que retratam esses mesmos prédios, monumentos, praças, obeliscos e paisagens. Afinal, como provar, no regresso a casa, que ele visitou esses locais?
O turista importante tem que ter sempre o celular funcionando, pois ele precisa o tempo todo estar conetado com o lugar de onde vem, não vá se conetar por engano, com o país que visita.
O turista importante, a não ser com a indispensável orientação de um guia que lhe aponte o que é importante ser visto, raramente sai a pé pelas ruas e praças dos locais que visita. Além de não ser de bom tom, não seria seguro, pois encontraria pessoas do local com as quais se relacionaria, e poderiam ocorrer imprevistos.
Aliás, imprevistos são eventos que nenhum turista importante quer ter. Os únicos toleráveis poderão ser o bife do jantar mais passado do que deveria, ou a água do banho não estar suficientemente quente.
Finalmente o turista importante regressa a casa com a visão que de fato interessa ter, a visão padrão dos locais que visitou, em tudo semelhante à visão que outros turistas importantes que o precederam nesses locais ficaram, e à da que turistas importantes que virão depois dele, terão.
Nem sempre é fácil ser um turista importante. Afinal, muitos dos locais visitados têm normas, hábitos e comportamentos no mínimo diferentes, por vezes estranhos. E é difícil no curto tempo de uma visita impor aos locais, os hábitos e comportamento do lugar de onde se vem. Mas, vale a pena tentar...

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A ESTÂNCIA DE VERÃO DO PAPAI NOEL



Penedo, estado do Rio de Janeiro, Brasil

Cansado do frio constante, Papai Noel fundou nos trópicos uma estância de verão. Em Penedo, no estado do Rio. Verdade? Não, é uma brincadeira, claro.
Penedo, foi fundada por Toivo Uuskallio, um finlandês vegetariano que, querendo levar uma vida natural, plantando e colhendo todo o ano, coisa impossível na Finlândia devido ao rigoroso inverno, se encantou pela região e, em 1929, comprou a Fazenda Penedo.
Hoje o local é um aglomerado de pousadas e hoteis. São tantos que toda a população do lugar não chegaria para os ocupar a todos!
Cachoeiras, belas trilhas, muito chocolate, saunas ― a palavra “sauna” vem do finlandês e significa banho ― e, na Pequena Finlândia, num conjunto comercial que reproduz uma pequena cidade finlandêsa, situa-se a Casa do Papai Noel!
Na Casa do Papai Noel, qualquer um pode conversar com o dito, segundo apregoam, o autêntico ― sem as renas ― mas pareceu-me que nem tudo por lá está de acordo com o esperado: escutei um garoto saindo da casa, e comentando com a mãe:
― Mãe, ele não falou “Oh! Oh! Oh!” nem uma “vezinha”?!
O Papai Noel dos trópicos, dito o autêntido, decepcionou.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Escrevo...


Escrevo, pois as palavras, pronunciadas, atropelam-me ideias, incompletam-nas, deturpam-nas, deturpam-me. Desenhadas no papel elas permanecem mais tempo que o tempo, desdobram-se, germinam sentidos, passam além de mim, multiplicam-me.
Palavras, leva-as o tempo, poderia ser o dito. Mergulhadas no rio-tempo, são jogadas às margens e apanhadas por quem delas se embebedará. Alguém que, apenas porque o tempo-rio corre, nem sequer é mais quem foi…
As palavras, pronunciadas, mudam, emudecem, trocam-se, enveredam caminhos outros…
Por isso, escrevo.


quarta-feira, 24 de outubro de 2012

SARDINHAS ASSADAS

RUA DA MINA

Rua Direita, Rua da Mina, Rua do Arco, Rua da Carreira. Estou numa vila ou cidade portuguesa? Errado. El Jadida, antiga Mazagão, em Marrocos, fica para lá, mas bem para lá de Marrakech. Na costa, a oeste. Ficamos na Cité Portugaise e logo somos invadidos pelo cheiro de sardinhas assadas.
A CISTERNA LUSA
─ C'est bon. C'est comme on fait les portugais. ─ Diz-me o marroquino, virando as sardinhas no fogareiro a carvão.
Os lusos não deixaram por aqui apenas a monumental muralha da vila, os canhões e baluartes e a cisterna.
MURALHAS DA CITÉ PORTUGAISE
Em 1769, cansado das investidas árabes, Marquês de Pombal fez transportar toda a população de Mazagão para o Amapá, no norte do Brasil. Lá eles fundaram Nova Mazagão.


Com direito a sardinha assada...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

PARA LÁ DE MARRAKECH

Viajar para lá de Marrakech, num trem da ONCF é quase tão ruim quanto viajar num trem da Central.
Os trilhos sulcam a terra árida a perder de vista. Terrenos cercados por cactos e pedras. Nas redondezas das cidadelas, o solo parece semeado de sacos a garrafas de plástico.
Súbito, o trem interrompe a marcha. Burburinho, cochichos. De um dos vagões saem dois policiais arrastando um pobre coitado pelos colarinhos. Onde irão no meio deste deserto que parece não ter fim?
Já em Casablanca, à cata dos locais por onde teriam andado Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, descubro que o filme foi integralmente rodado em Hollywood.
Peguei o trem de volta.

domingo, 21 de outubro de 2012

DJEMAA EL FNA


Dizem ser a maior praça de todo o continente africano. Djemaa el Fna em Marrakech, Património Imaterial da Humanidade, será seguramente o lugar mais animado do planeta. A tradução de Djemaa el Fna, ou uma das traduções, é “Assembleia dos Mortos” pois aqui, antigamente, criminosos eram executados e suas cabeças expostas, como exemplo. Mas em lugar algum do mundo se poderia encontrar mais vida: acrobatas, vendedores ambulantes de água, dançarinos, músicos, malabaristas, barracas de comida, contadores de histórias, curandeiros, saltimbancos, faquires, encantadores de serpentes, macacos amestrados, engolidores de espadas, dentistas, vendedores de plantas medicinais, chás para todos os males, doces típicos, cartomantes, vendedores de peles, de pedras, de ovos de avestruz, unguentos, sabão em pasta, especiarias, chapéus de palha, tatuagens em hena, tâmaras, suco de laranja, brinquedos…

Tudo acontece ao mesmo tempo, com sons e aromas exuberantes…
É só escolher o espetáculo e a sessão.

DJEMAAA EL FNA. A praça, de manhã, quase vazia. O património são as pessoas que por lá circulam com suas artes



MARRAKECH


Hospedamos-nos no Riad Medina Azahara, uma casa tradicional marroquina, com um pátio interno cheio de plantas, onde sobressaem bananeiras, laranjeiras, tangerineiras e uma figueira. Ao centro um pequeno lago. O quarto é espaçoso, o colchão confortável, o banheiro tinindo de novo, atendimento  simpático.A noite é silenciosa e ninguém diria que estamos perto da mistura de circo com espetáculo de variedades, feira e jardim zoológico que é a Praça Djemaa el Fna. E silenciosa prosseguiria a noite até um pouco antes das cinco da manhã. A essa hora… surpresa! Do alto do minarete, o muezim, com os altofalantes apontados para a janela do nosso quarto,  clama à oração.Não houve tampões de ouvidos nem almofadas na cabeça que permitissem prosseguir o sono interrompido.



O jeito foi sair da cama, ajoelhar e rezar.

domingo, 1 de julho de 2012

AS COISAS QUE MEU IRMÃO CONTA…



Caminhamos, eu e Jô, do Jardim da Estrela (Lisboa) até à Praça da Armada, em Alcântara. No Jardim da Estrela, conta ele (e eu não sei se será verdade, tal a fatia de inusitado que permeia o que ele diz) que a mãe e a tia brincavam às escondidas entre migalhas de pão jogadas aos patos, marrecos, gansos e afins. Os que por lá hoje andam seriam descendentes daqueles. Às escondidas brincavam elas também no Palácio das Necessidades, ali mesmo ao lado, onde elas descobriram uma passagem secreta que ia dar aos… aposentos do Rei Dom Carlos.
  Mas Jô… aos aposentos do rei?
  Sim, claro! – Responde meu irmão com o olhar mais sincero do mundo – O rei mesmo.
Chegamos à Praça da Armada que o povo designa de Praça do Zé do Garfo. O Zé é uma estátua de Neptuno, no centro da praça e o “garfo”, um tridente que ele tinha numa das mãos. Tinha, pois o tridente foi roubado faz tempo… Então, na Praça do Zé do Garfo, chamemos-lhe também assim, morou o bisavô dele o qual foi alfaiate dos filhos do rei. Certa vez o filho do dito alfaiate pegou “emprestada” uma farda de oficial para impressionar a namorada. Resultado: foi preso e deportado para África. Por lá penou anos a fio… Mesmo ao lado morava seu tio Casanova, IV Visconde da Várzea da Ourada. De frente para a praça residiu seu avô que, após calafetar aporta e a janela do banheiro, ligou o gás, suicidando-se: administrava um cassino clandestino flutuante de um figurão político, passou a mão nos lucros do dia e foi descoberto. Bem ao lado moravam os pais. Tinham um gato que odiava o pai e demonstrava-o urinando em todas as fotos que dele encontrava.
E meu irmão vai desenrolando histórias.
  Podias escrever um livro – digo-lhe – nem precisas inventar (mais) nada. É só relatares fatos acontecidos.
O que ele conta ultrapassa a ficção. Ou… é ficção.
Retemperamos forças numa tasca ao lado da praça

(tomara que ele não leia esta postagem)

MENDIGO SINCERO...



Finalmente um mendigo sincero e honesto! Encontrei-o no Chiado, em Lisboa. Organizado, ele tem recipientes para várias opções de esmolas: para comprar whisky ou vinho ou cerveja, ou até para se curar de uma possível ressaca.
Gostei. Coloquei um donativo no recipiente destinado à cerveja.

SETE GRAUS ABAIXO DE ZERO!!!!!


Entre o Rio e Paris. A passageira ao meu lado ressona alto. Nem os gritos de Bruce Lee que saem dos auscultadores lhe perturbam o sono. Do outro lado um outro pede mais duas garrafinhas de vinho: se até agora quase não parou de falar (sem dar a mínima para o fato de ser ou não escutado), com mais duas garrafinhas…
Finalmente o comandante anuncia a aproximação à pista do aeroporto Charles de Gaulle. “São oito da manhã, hora local. O tempo apresenta-se bom, sete graus negativos. Tenham todos um excelente resto de dia.” Teria eu escutado bem? O tempo apresenta-se bom, com sete graus negativos? Será ironia do comandante?
Na sala de embarque, enquanto aguardo a conexão para Lisboa, e depois de já ter dado duas voltas ao aeroporto, tentando em vão esquentar os pés, visto os casacos de lã que trouxe, embrulho-me no cobertor que peguei “emprestado” da Air France e enrosco-me num dos poucos aquecedores existentes na sala, que tentam, sem sucesso, elevar a temperatura ambiente.
Pela vidraça vislumbro o que a princípio pensei serem seres humanos. Impossível! Com sete graus negativos serão certamente robôs telecomandados.

 “Onde te vi despir, regresso agora para adormecer ou chorar…”. Frase escrita (autor: J. Co. D.) num muro em uma rua de Lisboa, perto do Largo de Dona Estefânia. Melancólica, tristonha, enlutada, dramática… lusitana. Penso como apareceria, usando o mesmo mote, essa frase numa parede de uma rua no Rio de Janeiro. E reescrevo-a mentalmente: “Onde te vi, regresso agora para te despir e adormecer agarrado a ti…”.
Adiante recebo um panfleto do Mestre Astrólogo e Curandeiro, Professor Sharifo Mustafa. No texto está escrito que ele “descobre todas as causas, ajuda a resolver todos os problemas, complicadíssimos. Tem soluções fáceis e com garantia”.
Seguramente ele saberá o porquê da diferença entre a frase escrita e a que eu imaginei. 
Vou lá!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu mundo em Morsing

O riacho Boqueirão Sacra Família encheu tanto que cobriu a rudimentar ponte que liga a casa do sítio onde me hospedo, ao resto do mundo. Estou isolado. O celular não tem sinal, o que aliás nunca aconteceu por aqui. Chove a cântaros. A energia elétrica caiu. A água só sobe à caixa de água com o auxílio de uma bomba elétrica. E o riacho cntinua subindo. Não se vêem os pilares da ponte. São dezenas de córregos que alimentam o Boqueirão ao longo do seu leito, em direção ao rio Piraí. Minhas provisões dão para vários dias, desde que me alimente de atum em lata e macarrão.

Imagino-me num mundo onde só eu vivo e de onde não é possível sair. Tenho livros, papel e caneta. E computador, mas sem energia... E tenho o silêncio, agora perturbado pelo som do correr das águas, correr esse que afiança inviolabilidade a meu mundo. Do alçapão do sótão, uma fileira de morcegos me espreita. Pensarão: porque diabos esse cara sorri, olhando o riacho?

Passam-se dois, três, quatro dias.

No quinto dia as águas descem e a ponte dá passagem. Meu mundo deixa de existir. Aparece um indivíduo de um sítio vizinho querendo saber se necessito de algo. Sim, respondo, gostaria que destruíssem a ponte ou que a cobrissem de água para sempre. Ele ri, eu finjo que rio.

Regresso ao Rio de Janeiro, cabisbaixo, atravessando a ponte...

domingo, 31 de outubro de 2010

O DEIXAR PASSAR O TEMPO, NO ALENTEJO...



Deixando o tempo passar...
Ao fundo, o burgo de Monsaraz

MONSARAZ


As casas e calçadas em xisto, os queijinhos frescos de Dona Maria da Graça (do Telheiro), o vozerio dos pastores reunindo as ovelhas, os sulcos para aferição do côvado e da vara na porta da vila, o cheiro de estevas no ar, o ensopado de borrego e a sopa de panela de galinha do campo, no Alcaide e ainda a surraburra (que eu nem sequer quis olhar...), as memórias submersas no Alqueva, o urro de morte do touro entre as muralhas do castelo, o deixar passar o tempo alentejano, as trilhas infinitas, monte acima, monte abaixo em direção ao alagado, o piar dos pássaros, a receita de açorda com beldroegas e poejo da Dona Ana, as lareiras que parecem salas de estar, o silêncio, estou em Monsaraz!

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MORSING E O SILÊNCIO


Em Morsing outra vez... embebido em silêncio...
O silêncio, o mesmo e único silêncio que antecede a descoberta, precede o espanto, o medo, a alegria inesperada.
No ambiente alegre e ruidoso do circo, antes do triplo salto mortal, o silêncio é total. Cada um faz para si, em algum instante durante a batida de um pênalti, um breve silêncio.
Pedindo silêncio, o maestro bate a batuta antes de assinalar à orquestra o início da sinfonia. Para muitos escritores, precedendo a aparição da palavra que procuram encaixar nas encruzilhadas de pensamentos e emoções, há uma fração de tempo em que o silêncio é total.
Há um silêncio antes da primeira respiração e do primeiro choro de um recém nascido.
"O resto é silêncio" são as últimas palavras de Hamlet. "Depois do silêncio, o que mais se aproxima do inexprimível, é a música", disse A. Huxley.
Segundo as lendas, no início dos tempos, antes do Big Bang não havia o silêncio. Ele surgiu pela primeira vez para que pudesse acontecer toda a criação.
No final dos tempos, acredita-se, o silêncio deixará também de existir.
Deixará de existir sim, em toda a parte, mas nunca em Morsing! Em Morsing o tempo parou, aqui não haverá fim; e não havendo fim, nunca o silêncio deixará de existir.
Melhor assim: sempre terei um lugar onde me enroscar no silêncio...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ILHA GRANDE, ILHA DE INHACA


Não há fotos que possam mostrar o que e como vejo, ou palavras que descrevam o que sinto. Nenhum termo por mais superlativo que seja, nenhum filme. Ilha de Inhaca no Oceano Índico, Ilha Grande no Atlântico Sul. A emoção me toma todo, escorrega pelos dedos até à caneta, sai pelos olhos, embaçando o horizonte. Da proa do barco vejo os contornos da ilha ficarem cada vez mais nítidos, com a mesma ansiedade com que no Atlântico vejo se aproximar a outra ilha. Em terra, percorro trilhas aqui, como as percorro lá. O cheiro do ar é o mesmo. Piso o chão como pisando um prolongamento de meu corpo. Descubro que algo de meu nunca saiu daqui, algo meu está para sempre lá. Ilha de Inhaca no Índico, Ilha Grande no Atlântico Sul. Os dois oceanos não se encontram no sul da África, as duas ilhas não estão desunidas. Elas estão ligadas em mim; por mim se passa de uma ilha para outra, não como uma ponte, mas porque elas estão juntas em minha carne, em meu sentir.
Eu nasci nesses dois lugares.