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domingo, 15 de setembro de 2013

La Giralda, Sevilla

Até aos sinos a construção é árabe
Reprodução da imagem do topo da Giralda (note-se a "vela"), à entrada da Catedral
A torre, dos sinos para cima é construção cristã. Até aos sinos é árabe. E quatro séculos separam as duas construções. Enquanto subo a interminável escadaria, reparo que a par com os degraus existe uma rampa. Finalidade? Se eu suo subindo as escadas, o que dizer de um velho “muezin” que as tinhas que subir cinco vezes ao dia, para chamar os fiéis às orações? Os sábios árabes construíram então rampas para, a cavalo, subirem até ao topo.
Olho em volta, não vejo cavalo algum. Muito menos elevador.
Prossigo, arfando, escadas acima.

Giralda, pois a estátua que está no topo da torre, gira (daí o nome: Giralda). Há uma reprodução dessa imagem no solo, à entrada da Catedral, bem perto da torre. Nela se pode ver uma espécie de “vela” presa à estátua que, com o vento, a faz girar.

sábado, 9 de março de 2013

RECEITA PARA SER UM TURISTA IMPORTANTE

Segue a receita para se ser um turista importante (que não lhe "assente a carapuça", leitor)


O turista importante pode ser homem ou mulher, ou até mesmo criança. Não importa sexo ou idade. O que faz um turista ser importante, são suas atitudes.
O turista importante não se hospeda em casa de amigos ou simples pousadas, onde o contato com residentes tangencie a informalidade. Ele fica em hotéis de luxo, com um conforto mínimo, em tudo semelhante ao de sua própria residência: tapetes felpudos no chão e amplos sofás. Nesses hotéis não é preciso conversar com ninguém local. Para que as necessidades sejam satisfeitas, basta encomendar ou ordenar o que se precisa, por telefone, sem mais problemas ou intimidades.
O turista importante exige sempre um apartamento com ar refrigerado. Nada de janelas abertas, pois nunca se sabe o que pode vir junto com o ar fresco.
O turista importante não se arrisca a provar a cerveja local ou o destilado produzido no país que visita. Para ele, o whisky a que se acostumou, é o aperitivo que o satisfaz.
O turista importante tampouco come a comida local, pois não pode passar sem um bife mal passado, o arroz no ponto e as batatas fritas bem sequinhas.
O turista importante não viaja nunca nos transportes públicos dos locais que visita, pois não há nada que chegue a um bom taxi com ar refrigerado e vidros fumé.
O turista importante não se arrisca a perder tempo assistindo a manifestações culturais locais, como a dança ou a música, a menos que sejam organizadas por alguma empresa de turismo credenciada (credenciada no país dele), e caso não haja nenhum jogo de futebol importante, a ser transmitido pela TV via satélite do seu hotel.
O turista importante sempre compra lembranças para levar para casa, muitas vezes ícones de lugares que ele não teve disposição para visitar, mas que estão disponíveis nas vitrinas, atendidas por funcionárias muito atenciosas, das lojas situadas no térreo do hotel onde ele está hospedado. Aliás uma das características de determinados turistas importantes é visitar outro país como se esse país, todo ele, fosse uma espécie de supermercado gigante. E voltam para casa descrevendo o lugar que visitaram, como se ele fosse uma sucessão de vitrinas, com utensílios e coisas à venda.
O turista importante bate fotos e filma os locais de interesse turístico. Os filmes são feitos de dentro de coletivos fretados pelo hotel ou em mirantes conhecidos, seguros, guardados, vigiados, quase tranquilos, quase selados. As fotos que o turista importante bate, são como devem ser: prédios, monumentos, praças, obeliscos e paisagens, que serão tão mais interessantes quanto mais parecidas forem as fotos, com os postais que retratam esses mesmos prédios, monumentos, praças, obeliscos e paisagens. Afinal, como provar, no regresso a casa, que ele visitou esses locais?
O turista importante tem que ter sempre o celular funcionando, pois ele precisa o tempo todo estar conetado com o lugar de onde vem, não vá se conetar por engano, com o país que visita.
O turista importante, a não ser com a indispensável orientação de um guia que lhe aponte o que é importante ser visto, raramente sai a pé pelas ruas e praças dos locais que visita. Além de não ser de bom tom, não seria seguro, pois encontraria pessoas do local com as quais se relacionaria, e poderiam ocorrer imprevistos.
Aliás, imprevistos são eventos que nenhum turista importante quer ter. Os únicos toleráveis poderão ser o bife do jantar mais passado do que deveria, ou a água do banho não estar suficientemente quente.
Finalmente o turista importante regressa a casa com a visão que de fato interessa ter, a visão padrão dos locais que visitou, em tudo semelhante à visão que outros turistas importantes que o precederam nesses locais ficaram, e à da que turistas importantes que virão depois dele, terão.
Nem sempre é fácil ser um turista importante. Afinal, muitos dos locais visitados têm normas, hábitos e comportamentos no mínimo diferentes, por vezes estranhos. E é difícil no curto tempo de uma visita impor aos locais, os hábitos e comportamento do lugar de onde se vem. Mas, vale a pena tentar...

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

PARA LÁ DE MARRAKECH

Viajar para lá de Marrakech, num trem da ONCF é quase tão ruim quanto viajar num trem da Central.
Os trilhos sulcam a terra árida a perder de vista. Terrenos cercados por cactos e pedras. Nas redondezas das cidadelas, o solo parece semeado de sacos a garrafas de plástico.
Súbito, o trem interrompe a marcha. Burburinho, cochichos. De um dos vagões saem dois policiais arrastando um pobre coitado pelos colarinhos. Onde irão no meio deste deserto que parece não ter fim?
Já em Casablanca, à cata dos locais por onde teriam andado Humphrey Bogart e Ingrid Bergman, descubro que o filme foi integralmente rodado em Hollywood.
Peguei o trem de volta.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MORSING E O SILÊNCIO


Em Morsing outra vez... embebido em silêncio...
O silêncio, o mesmo e único silêncio que antecede a descoberta, precede o espanto, o medo, a alegria inesperada.
No ambiente alegre e ruidoso do circo, antes do triplo salto mortal, o silêncio é total. Cada um faz para si, em algum instante durante a batida de um pênalti, um breve silêncio.
Pedindo silêncio, o maestro bate a batuta antes de assinalar à orquestra o início da sinfonia. Para muitos escritores, precedendo a aparição da palavra que procuram encaixar nas encruzilhadas de pensamentos e emoções, há uma fração de tempo em que o silêncio é total.
Há um silêncio antes da primeira respiração e do primeiro choro de um recém nascido.
"O resto é silêncio" são as últimas palavras de Hamlet. "Depois do silêncio, o que mais se aproxima do inexprimível, é a música", disse A. Huxley.
Segundo as lendas, no início dos tempos, antes do Big Bang não havia o silêncio. Ele surgiu pela primeira vez para que pudesse acontecer toda a criação.
No final dos tempos, acredita-se, o silêncio deixará também de existir.
Deixará de existir sim, em toda a parte, mas nunca em Morsing! Em Morsing o tempo parou, aqui não haverá fim; e não havendo fim, nunca o silêncio deixará de existir.
Melhor assim: sempre terei um lugar onde me enroscar no silêncio...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A crônica que se segue sairá brevemente num livro de crônicas: RETRATOS DE VIAGENS



A ÁFRICA QUE ACORDOU EM MIM
O mato molhado pelo cacimbo da madrugada, o rugido do leão assustando a noite, as réstias de brasas da fogueira se escondendo do sol prestes a nascer, o matope, a seca e a chuva a cântaros, o chilrear dos pássaros, a picada do mosquito, o horizonte infinito que o sol desdobra vencendo a neblina, o garoto mordendo a cana cujo suco lhe escorre pelo peito, a manga verde com sal, o piri-piri sacana, o cheiro do acafrão, a família pés descalços, em fila na berma da estrada, a sura queimando a garganta, a mulher de peito nu batendo a roupa na pedra, o espinho da micaia, a maresia, o odor da terra molhada, a profusão de cores dos mercados, as acácias vermelhas, o sol queimando a pele, a sombra da sicóia, os cachos de banana, o caju.
É o que, de olhos fechados consigo ver, debruçado na varanda da memória. É o que já lá estava. É o que acordou em mim.
Assalta-me uma frase que li não sei onde, não sei de quem: “Se durante a tua vida visitares dois continentes, que seja a África, duas vezes”.